Douglas Quinta Reis é um dos sócios da Devir Editora. Essa entrevista foi realizada em 2003 durante o Sampa RPG.
Alessio – Primeiramente, como você conheceu o RPG?
Douglas – Bom , a gente importava histórias em quadrinhos, né? E umas das empresas com que a gente trabalhava distribuía também revistas de RPG, Dungeons & Dragons e… alguns jogos. Então a gente começou a exportar essas coisas mais como experiência, não tinha a menor idéia do que acontecia, né? E nisso eu descobri que tinha um cara na banca Domingos de Morais que comprava a Dragon, no Rio de Janeiro tinha não sei quem que comprava Dungeon e fui descobrindo que tinha alguma coisa que poucas pessoas no Brasil conheciam. E simultaneamente, a gente tinha um boletim publicado sobre histórias em quadrinhos e tava sendo lançada uma séria chamada Wild Cards e eu precisava escrever sobre aquilo e fui buscar informação e descobri que tinha sido publicado um jogo baseado na mesma série, aí fui atrás do jogo e descobri a Steve Jackson Games, aí eles me mandaram um monte de informação e eu pensei “isso aqui é legal”. Começamos a trabalhar com RPG.
Alessio – Eu ouvi uma espécie de lenda sobre o jogo ter chegado na Devir sem querer numa encomenda de quadrinhos…
Douglas – Não, não.
Alessio – Isso não aconteceu então?
Douglas – Por engano não. A gente encontrou algumas coisas pra descobrir o que era. A gente não sabia o que era e precisou descobrir. Simultaneamente, enquanto a gente tava procurando informações sobre aquela série, Wild Cards, que o Steve Jackson tinha criado um RPG sobre aquilo, ele me mandou um monte de informação, inclusive um monte de livros. Aí “opa, vamos estudar isso aqui, né?” e a curiosidade matou o gato, né?
Alessio – Como que surgiu a Devir?
Douglas – A Devir tem 4 sócios. Esses 4 trabalhavam juntos, com computação e gostavam de ler histórias em quadrinhos. Na verdade, a gente mais tinha idéia de ter uma livraria. Aí a gente viu que, mais importante que ter um ponto, era ter uma organização. História em quadrinhos é uma coisa seriada e precisava ter continuação então precisava de um trabalho mais… mais árduo nessa área e a gente começou a desenvolver. Então a gente começou com o Recado, com as listas de assinatura, na direção de oferecer um serviço que a gente queria pra gente mesmo.
Alessio – A escolha do GURPS como primeiro sistema a ser traduzido se deve ao contato com a Steve Jackson Games através de Wild Cards ou houve algum outro fator?
Douglas – Bom, o contato certamente ajudou, antes do contato eu não tinha a menor noção do que era GURPS, então o fato de ter recebido os livros ajudou a ter contato. Quando a gente foi escolher, a gente já trabalhava a essa altura com bastante gente que conhecia RPG, três anos depois do 1o contato, aí as propostas eram outras. O pessoal que a gente conhecia queria que fizessem Shadowrun, ou fizesse Guerra nas Estrelas. E a gente – a gente que eu digo era eu, o Mauro e a Débora – a gente procurando alguma coisa que tivesse mais a ver com o Brasil, porque a gente achava assim, que Guerra nas Estrelas era um beco sem saída. Se o cara gosta de Guerra nas Estrelas não significa que ele vai necessariamente jogar um RPG disso. Agora, se ele não gostar de Guerra nas Estrelas, ele não vai jogar nunca. Então se agente começasse com uma coisa muito marcada assim, uma coisa muito conhecida, ia limitar muito as chances que eu tinha. Então a gente preferir justamente um caminho mais difícil, aparentemente, que é cenário nenhum, mas que deixasse muito aberto pra todo mundo que quisesse, tanto que dava pra pegar qualquer área. O cara que gostava de ficção científica tinha possibilidade, que gostava de faroeste tinha possibilidade, o que gostava de mundo moderno tinha possibilidade.
Alessio – E de onde surgiu a idéia de se criar o EIRPG?
Douglas – O Tadeu trabalhava coma gente e desde de o começo ele queria organizar alguma coisa, achava que a gente tinha que ter uma festa pra reunir as pessoas. De fato, isso é importante, né? Muita gente vem aqui não exatamente pra jogar, vem pra ver os amigos e acho que essa interação é importante pro próprio hobby. O fato de reencontrar amigos que joguem faz com que eu continue jogando. Então a gente achava que tinha que ter uma festa, foi só uma questão de achar um local e um grupo que tivesse com vontade de organizar! Isso é uma coisa bastante trabalhosa.
Alessio – Do 1o encontro pra cá, ouve uma mudança no público que o frequenta? Você consegue apontar essas mudanças?
Douglas – Mudou, claro. Tem muita gente nova. O primeiro encontro tinha 6.000 pessoas e o último teve 12.000. Tem muita gente nova que não tava no começo. Exatamente porque ele foi crescendo no abrangência. O último encontro que teve a gente dividiu em estados diferentes. O primeiro dia foi basicamente São Paulo, 430 cidades, né? Então isso foi modificando o público, porque tinha gente nova, que começou a jogar recentemente e também porque tá vinda gente de cada vez mais longe pra participar do encontro, então mudou bastante, muito embora uma boa parte das pessoas que foram no primeiro continuem vindo. Aqueles que ainda têm alguma ligação com o RPG continuam vindo, o que é muito legal. Mas é interessante que o público daqui também é muito diferente do público do EIRPG. Um monte de gente que vem aqui não vai no encontro e vice-versa.
Alessio – E saberia dizer o por quê disso?
Douglas – Não sei… O encontro internacional é como ir à Roma, né? Assim é uma coisa grande que as pessoas que as pessoas dão uma importância, tem convidado internacional, é como um ápice. Muita gente se prepara pro encontro, monta aventura, eu acho uma maravilha. Aqui é uma coisa mais descompromissada. O cara fala “Ah! Não tenho onde ir!” o cara acorda sábado, meio-dia “Ah, vou lá no sampa ver se o pessoal tá lá…”.
Alessio – Você acredita que os jogos publicados por vocês acabem determinando o público RPGista?
Douglas – Ah, claro. Por exemplo, o Vampiro provocou duas mudanças importantes. Primeiro, mudou o foco de fantasia medieval pra horror, trocou o foco no sentido de, por exemplo, muita regra numa coisa mais livre, que é mais de acordo com o espírito brasileiro, né? O brasileiro não gosta muito de obedecer regra, nem lei, nem nada, ele vai fazendo. O Vampiro, quando apareceu, dava essa impressão do “você vai fazendo”, né? Dava muito mais liberdade que os outros, que eram muito mais rígidos, então isso foi importante. A outra mudança é que horror atrai muito mais mulher do que fantasia medieval. Pra se ter uma idéia, o maior público de leitor de literatura de horror é mulher, quase 70%. O horror atrai mais as mulheres. Antes o RPG era um “Clube do Bolinha” e o Vampiro teve esse mérito de trazer mais mulher pro RPG. O Dungeons & Dragons, quando ele mudou pro D20, mudou outra vez, levou outra vez à direção da fantasia medieval. E por coincidência, apareceu também Harry Potter e o filme de Senhor dos Anéis contribuíram pra isso, esse foco na fantasia.
Alessio – Quando houve aquele recesso no mercado RPGista, com a Abril e a Ediouro saindo do mercado, dizem que o que salvou a Devir na época foi o Magic. Você concorda com isso?
Douglas – Na verdade, o RPG não caiu naquela época, as editoras caíram. Isso não significa que o mercado tenha diminuído ou que o número de jogadores tenha diminuído. As editoras chegaram a conclusão de que aquilo não era um bom negócio pra elas, certo? Mas pra nós, nossa venda de RPG não diminuiu naquela época.
Alessio – Não o que tenho visto nos trabalhos em que tenho pesquisado, a maioria deles dizem que todo mundo quebrou…
Douglas – Não, imagina! A Ediouro nunca quebrou, nem a Abril.
Alessio – Que elas quebraram nessa área de RPG e que a Devir quase quebrou também…
Douglas – A gente quase quebrou um monte de vezes, mas por outros motivos. Plano econômico, governo cata o dinheiro e aí já é outra história, não tem nada a ver. A gente já passou por dificuldades, claro. Quando tem recessão, como agora, é uma dificuldade, a gente luta pra sobreviver, o pessoal não tem dinheiro pra comprar, mas… Naquele momento em que as editoras saíram, acho que saíram porque sentiram que era um negócio que dava muito trabalho, tem que estar muito em contato com jogador e com o grupo, isso pro tamanho do padrão delas, então elas saíram fora. Por coincidência, o Magic tava chegando naquela época e pra gente foi uma maravilha, né? O Magic junto com o RPG. Mas a Abril saiu 1 ano depois do Magic, já tinha o jogo há 1 ano no Brasil ou mais quando a Abril saiu. Então uma coisa não tema ver com a outra. O Magic ajudou bastante, porque tudo que dá dinheiro, gera mais dinheiro, quer dizer, Magic dá muito mais dinheiro do que RPG, então gera capital pra gente fazer mais coisa. Não adianta eu… se eu tô publicando um livro, um livro por ano, igual a gente fazia no começo e isso for dando um lucrinho pra gente ir vivendo, não tem como eu dobrar. Precisa de capital pra dobrar. Precisa pagar a gráfica pra depois vender o livro. E nisso o Magic ajudou, mas dizer que sem ele a gente quebrava é exagero.
Alessio - Quais são os critérios que a Devir usa para escolher os livros publicados? Preferências pessoais, tendências internacionais, sugestões do público…
Douglas – As três coisas. A gente conversa com o resto do mundo pra saber o que está acontecendo. Por exemplo, agora a gente não pode ignorar que o Mundo das Trevas vai chegar no Apocalipse, então a gente tá se preparando pra isso, tá planejando uma série grande de livros pro encontro de 2005 pra acontecer o fim do Mundo das Trevas. Então a gente olha pro mercado e vê o que tá acontecendo, primeiro. Segundo, a gente publica aquilo que a gente gostaria mesmo! Acho importante publicar porque a gente gosta desse autor e terceiro a gente ouve o público. Eu recebo de 30 a 40 e-mails por dia de gente que entra no site e fala assim “Ah, quando vocês vão publicar isso”, “Por que você não publica aquilo”, “Pelo amor de Deus publica isso”, “Pelo amor de Deus não publica isso” e a gente vai ouvindo e tirando uma média por aí, né?
Alessio - Por que o GURPS Espada da Galáxia não saiu pela Devir e foi lançado gratuitamente na Internet?
Douglas – Porque o Marcelo Cassaro entregou isso pra gente fazer, aí a gente tinha um milhão de coisas pra fazer, ele decidiu preparar o livro a tempo e um dia aí ele cansou de esperar e ele colocou no site, disponibilizou no site e, sei lá, depois disso a gente nunca mais se falou.
Alessio – O trabalho da Dragão Brasil com o sistema 3D&T conseguiu suprir uma lacuna que a Devir não supria? Vocês tinham em mente algo para trazer essa molecada que curte anime/manga para o RPG?
Douglas – Eu acho que o 3D&T e mesmo a Dragão são importantes no sentido de publicar uma série de coisas prontas que o público mais novo precisa. Se a Trama não tivesse fazendo isso, a gente ia ter que fazer, que é publicar coisas prontas, relativamente simples e baratas que o público pega aquilo e vai jogar. Não tem experiência em criar aventuras, vai lá e pega a aventura e cenários prontos, isso é uma maravilha. Então é um trabalho importante, se eles não estivessem fazendo, alguém teria que fazer. Então é bom que eles fazem.
Alessio – O caso de Ouro Preto já se encerrou? O que resultou dele?
Douglas – Ainda não acabou. Então a situação é assim: o procurador fez um pedido, pediu uma liminar, o juiz concedeu liminar pra classificação etária, não concedeu a liminar pra proibição. Então a gente tá fazendo classificação etária, mandando livro lá pra Brasília, pro Ministério da Justiça, que escreve lá “Acho que isso aqui é pra menor de 12, 14″, sei lá o que passa na cabeça deles. Mas o processo continua em Belo Horizonte, a gente continua reunindo material, mandando pra lá, a gente contratou uma psicóloga, na verdade doutora em psicologia e a gente conseguiu que o juiz nomeasse um profissional habilitado pra julgar o caso. O Estado, a Federação tá contratando uma psicóloga que vai avaliar o caso, a gente teve a possibilidade de contratar um interlocutor pra discutir com essa psicóloga. Então foi mandado uma série de documentos na área de psicologia pra lá e, no momento, o processo tá parado no sentido que a gente tá pedindo que seja anexado a esse processo os autos do processo de Ouro Preto, afinal de contas, o fato gerador é aquele então toda informação que existe sobre aquilo tem que estar anexada, par que se possa tomar uma decisão com base em fatos e não em fantasias.
Alessio – O episódio gerou alguma repercussão negativa ou algum prejuízo pra Devir?
Douglas – Acho que ficou na mesma. Quem já sabe o que é, não é afetado. Quer dizer, aconteceu muito assim, o jogador sabe e o pai não sabia, então o filho fazia uma coisa que ele não sabia o que era, sabia que chamava RPG, então de repente ele vê lá “Jogo da Morte/ RPG”, houve muito problema no sentido de pai/filho que ele não sabia o que o filho fazia. Agora, os pais que acompanham, mesmo a uma certa distância, a atividade do filho, não tinha nada contra.
Alessio – Você joga RPG ainda?
Douglas – Jogo.
Alessio – E o que você gosta mais de jogar?
Douglas – Bom, eu não tenho grandes chances de jogar campanhas, nem grandes cenários, eu gosto de coisa rápida. Eu jogo algo mais simples ainda, que é o Mini-GURPS, jogo um 3D6.
Alessio – E tem algum jogo que você não gosta muito? Cenário, regras…
Douglas – Hahahaha… Acho que não. O que eu sinto é que vários jogadores têm uma característica, então pela vida que tenho, não dá par ficar preparando uma campanha grande, né? Então não dá pra fazer uma coisa tipo, jogar uma campanha de Dungeons & Dragons com personagens de 3º nível pra chegar até o 18, nunca vou poder preparar isso. Então eu tenho uma tendência e me afastar dessas coisas e ficar mais perto das simples, jogar uma aventura de Chapeuzinho Vermelho Mini-GURPS ou Mulheres Machonas ou Toon, são coisas rápidas que eu sento aqui e falo “Vamos jogar?” “Vamos!”.
Alessio – Como é trabalhar com RPG? Vale a pena, compensa, o hobby acaba enchendo…
Douglas – Ah, eu acho legal, eu sempre gostei de ler, passei minha vida lendo, então trabalhar com livros é meio que realizar um sonho. Agora a brincadeira RPG é ótima, ela dá possibilidade da gente usar a criatividade, rapidez de raciocínio, improviso, o trabalho em grupo, então é um prazer trabalhar com essas coisas e prazer maior é estar em contato com um monte de jovem. Trabalhar com RPG me ajudou em casa, porque trabalhando com essa garotada, acompanhando ela, ficou mais fácil eu me relacionar coma garotada que tenho em casa.
Alessio – Então seus filhos jogam?
Douglas – Jogam.Ficou mais fácil de se relacionar porque tem uma coisa em comum. Então o fato da gente ter começado jogando um dia fez com que ele tivesse abertura pra mostrar bandas de 1960 pra eles e eles me mostrarem o que tá acontecendo agora. A conversa começou lá no Magic ou no GURPS e agora tá na música que eles ouvem, ou ate me convidar “Ah, vamos assistir o show do Eric Clapton” ou vamos ver um gaitista de blues que ele gosta. Então acho que isso foi muito bom, criar essa possibilidade de diálogo que talvez não existisse se eu estivesse trabalhando com computador como eu estava, perdido lá no meio do mundo e só preocupado com memória RAM.
Alessio – A Devir tem filiais em Portugal e Espanha. Quais as diferenças entre os mercados brasileiro e europeu?
Douglas – Bom, em Portugal praticamente não existe mercado. Já existiu, foi forte e aí as pessoas que tavam fazendo tiveram que parar por uma razão ou outra, então hoje praticamente não tem RPG em Portugal. O que existe em geral é material importado, mas não tem editora ativa em Portugal.
Alessio – Os livros que vocês importam pra lá são os livros que vocês produzem aqui?
Douglas – Isso, aí tem muito problema de linguagem, porque eles não gostam do brasileiro e a gente tá se preparando par produzir livros em português de fato, mas ainda há muito trabalho a ser desenvolvido. Na Espanha o RPG é forte, são 6 ou 7 editoras, eles produzem alguns RPGs de lá, sobretudo na área de humor e na área histórica da Espanha, fantasia, muito boas e pelo menos 3 editoras publicam praticamente tudo que sai nos Estados Unidos. Então é um mercado bastante desenvolvido e muito duradouro. O que existe, eu acho, na Espanha é uma tendência um pouco adiante da gente no sentido de desenvolver cenários próprios, que é onde a gente vai chegar daqui a 1 ano. Estamos trabalhando bastante Mini-GURPS que ainda não foram publicados mas estão sendo desenvolvidos uma grande quantidade deles.
Alessio – Então você acredita que a tendência do RPG no Brasil nos próximos anos é a criação de sistemas e cenários próprios?
Douglas – A gente está caminhando muito rápido nessa direção, tá detectando muita gente que está disposta a escrever na direção de produzir bastante material daqui.
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