Quando Surgem as Dúvidas – Parte 3

Sonhar, a terra de onde vêm nossos sonhos, o lugar que visitamos todas as noites. Hoje, vamos nos dirigir ao centro desse reino e, mais especificamente, ao Castelo do Sonhar. Esta residência magnífica, nos moldes dos palácios renascentistas , é a morada do regente deste lugar, o Perpétuo dos Sonhos. Na entrada da construção estão seus três guardiões: o grifo, o dragão e o pégaso. Eles dariam a vida pelo seu senhor, se necessário.

Em seu interior, o castelo parece bem maior do que por fora. É impossível descrever seus infinitos aposentos, onde tudo que é ou não imaginável pode ser encontrado. Na sala do trono, dois ilustres cavalheiros, Caim e Abel, os guardiões dos mistérios e dos segredos, respectivamente, estão tendo uma audiência com o próprio Lorde Sonho. Ele é uma figura imponente, de pele pálida como a Lua e cabelos da mesma cor presos em um pequeno rabo-de-cavalo. Seus olhos são de um negro mais profundo que a escuridão e traja um nobre manto branco, além de trazer uma grande esmeralda verde pendurada no pescoço por uma corrente. Presta atenção em Caim, que parece extremamente irritado e pede para que fale.

- Milorde, esse incompetente fez novamente! Revelou outro segredo! Logo não haverão segredos a serem guardados! Exijo do senhor uma atitude!

Sonho pondera enquanto observa seus dois servos. Caim, alto, magro, de cabelos e barba ruivos, trajando um paletó bege, não pára de gesticular e falar, quase derrubando seus óculos no chão. Já Abel, baixo, gordo, cabelos e barba negros, vestido com um paletó azul e um chapéu turco vermelho, permanece de cabeça baixa e nada fala. Debaixo de suas pernas, Goldie, sua gárgula dourada, rosna em direção ao cruel irmão de seu dono. Por fim, o Perpétuo dos Sonhos se manifesta:

- Meu caro Caim, você não está em condições de exigir nada. Eu lhe aviso pela última vez: se dirija a mim assim novamente, e será severamente punido.

Caim fica visivelmente envergonhado. Mais ponderado, diz:

- Sinto muito, milorde. Mas e quanto meu irmão, ele…

- Seu irmão não é perfeito, assim como você. E se eu despedí-lo, quem ficará no seu lugar?

- Bem… não tenho nenhum nome agora, mas…

- Creio que o assunto já se encerrou.

Ao fim disso entra mais uma pessoa no aposento. É extremamente alta, magra e calva. Usa enormes óculos redondos e traja roupas de mordomo. Este é Lucien, assistente do regente deste reino onírico. Formalmente, ele fala:

- Senhor, um de seus irmãos o convoca na galeria.

Sonho se levanta, dirige-se a seu fiel servo e diz:

- Obrigado Lucien. Poderia acompanhar estes cavalheiros até a porta?

- Pois não, senhor.

Os três partem, mas Caim resmunga sobre a conversa que teve e diz algo sobre ele mesmo tomar as providências sobre a irresponsabilidade de Abel. Assim que fecham a porta, Sonho pergunta:

-Qual de meus irmãos deseja falar comigo?

Surge a imagem de uma figura andrógina, com cabelos curtos negros e olhos da mesma cor, traz nos lábios um sorriso malicioso. Veste um fraque ultradecotado e fuma. É Desejo, irmã(o) gêmea de Desespero. Ele(a) diz, cinicamente:

- Olá irmão! É bom ver você de novo.

A resposta é seca:

- Poupe-me de seu sarcasmo, Desejo, e vamos direto ao assunto.

- Tem certeza de que depois que morreu mudou alguma coisa? Para mim, continua o mesmo chato de sempre…

Sonho permanece calado. Desejo suspira e fala:

- Está bem. Destino está nos convocando para um conclave. Quer que vá agora para seu reino.

- E por que ele mesmo não me convocou?

- Porque eu fiz questão de te chamar! – ele(a) termina, aumentando ainda mais o sorriso enquanto desaparece.

(continua…)

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