A Confissão Final

Steve finalmente acorda. Sua cabeça dói muito. Olha em volta, tentando reconhecer o lugar. É uma sala aparentemente pequena, sem janelas e sem mobília, a não ser pela cadeira na qual está algemado e pelo holofote ligado e apontado em sua direção, o que não o deixa ver muita coisa. Tenta usar seu sangue para aumentar sua força, mas isso se mostra em vão, pois não são algemas comuns.

Frustado, abaixa a cabeça e respira fundo. Não acredita que se deixara capturar tão facilmente. Ele é alto e, apesar de ser magro, não era exatamente um “frangote”. Usa seu cabelo impecavelmente curto e penteado de lado. Está sempre bem vestido, com roupas tipo esporte (se bem que a roupa que está usando agora encontra-se coberta pelo sangue de diversas feridas pelo seu corpo). Sem poder fazer nada, tenta pôr a cabeça em ordem…

Estava em seu apartamento, tranqüilamente vendo televisão, quando tocou a campanhia. Sempre olhava no olho mágico, mas desta vez estava tão entusiasmado com o plano que havia feito que nem cogitou olhar por ele. Há tempos seu mestre vinha empreendendo-se em atividades ilícitas e Steve começou a copiar as informações “mais quentes” disso tudo, afinal nunca sabe-se quando isso pode ser útil. E foi, pois acabou arrumando uma pessoa interessada em comprar essas informações por um preço, digamos, bem mais do que ele achava “razoável”. Tanto que não copiou as últimas informações dos documentos, pura e simplesmente roubou-os. Como era o agente mortal que trabalhava a mais tempo na empresa, seu superior jamais desconfiaria dele. Já tinha recebido metade do dinheiro e iria receber a outra metade no Caribe, aonde passaria o resto de sua vida como playboy. Precisaria de outra fonte de sangue vampírico, porém, essa era a menor de suas preocupações. Mas seus sonhos acabaram-se quando abriu a porta e viu três homens armados de pistolas automáticas. Mandaram que ele se virasse em direção a parede (Steve não ousou retrucar ), então acertaram-lhe uma coronhada em sua cabeça e bateram nele até desmaiá-lo.

Agora encontrava-se prisioneiro nesta sala. Quem poderia ter feito isso? Seu mestre possuía diversos inimigos, é possível que algum deles o tenha capturado a fim de obter algumas informações a seu respeito. Mesmo assim, a dúvida permanecia, quem seria? Se aquele grupo de vampiros-feiticeiros foi o responsável por isso, Steve está em maus lençóis, pois todos sabem do ódio que eles sentem pelo seu chefe. Não haviam esquecido o roubo do Cálice de Baal e esperavam por uma oportunidade de vingança.

Após intermináveis horas, a porta finalmente se abre e adentram três sujeitos. Fica difícil ver algo com aquela luz em sua direção, mas ele reconhece-os. Foram eles que invadiram seu apartamento e o espancaram. Então adentra uma quarta pessoa que, apesar da luz, ele imediatamente reconhece. Essa pessoa é…

- Erick Shields?- diz um espantado Steve.

Sim, é Erick Shields. Um dos mais influentes e notáveis entre os vampiros que se consideram artistas. É um sujeito alto, magro, porém saudável (tanto quanto um vampiro pode ser). Tem os cabelos na altura do queixo e cultiva um visível, mas discreto, cavanhaque. Como sempre, veste uma camisa branca, blazer, calça social, sapatos e está com seu inseparável cigarro. É conhecido por sua arrogância, prepotência e total amoralidade. Sua única paixão, além dele próprio, é a arte à qual ele tanto se dedica. Resumidamente, ele não um tipo de pessoa exatamente agradável, e essa pessoa era o mestre de Steve. Era essa pessoa que ele havia traído.

- Ora, ora!- diz Erick com sua voz sempre sarcástica.- Se não é Steve
Osbourne, meu servo preferido? O filho pródigo retorna ao lar, hein? E então, quais são as novidades?

Steve abaixa a cabeça, nervoso. Sabe que está completamente perdido. Sem saber o que fazer, permanece mudo por um tempo. Arrisca disfarçar, temeroso:

- Não sei o que quer dizer, senhor.

A risada que Erick solta preenche a sala, causando arrepios no já assustado mortal. O vampiro olha então para ele e fala, irônico:

- Não sabe? Coitado, tão inocente! Meu caro, eu sei que um documento com assuntos totalmente danosos à minha estimada pessoa sumiu dos meus arquivos e ao mesmo tempo, você some e não dá mais notícias. Coincidência? Creio eu que não. Portanto, vou ser bem direto: onde encontra-se o maldito documento?

Faz-se um silêncio sepulcral na sala. O que Steve faria? O documento nem encontrava-se mais com ele. Precisava pensar em algo, e precisava fazer isso logo. Interrompendo seus pensamentos, Erick se manifesta:

- Não vai falar, certo? Alberto, o lança-chamas.

O servo sai da sala e volta com a arma ligada. Steve sua frio, ele só pode estar brincando. Calmamente, o vampiro dá uma tragada em seu cigarro e prossegue:

- Sei que não teme o fogo tanto quanto nós, mas o dano que é causado por ele em vocês, mortais, é tão mortal quanto o dano causado em nossa singular espécie. Não disfarce, sei que está apavorado.

O servo amaldiçoa seu mestre. Ele estava lendo sua aura! Mas o maldito ser encontrava-se certo. O mortal suava tanto que parecia ter tomado um banho. Erick aproxima-se e, olhando nos olhos do traidor, diz:

- Meu caro Steve, você me conhece. Sabe que só aviso uma vez e acho bom você falar. Minha vida é eterna, minha paciência não.

Dito isso, ele se afasta, dá mais uma tragada em seu cigarro e fica olhando para a ponta acesa do mesmo. De repente, vira-se e enterra o cigarro no rosto de seu prisioneiro. O grito dele quase faz eco na pequena sala. Tenta perguntar novamente:

- Vai falar ou não? Já desperdicei um ótimo cigarro e não quero fazer o mesmo com a cadeira.

Após um estalar de dedos de seu chefe, Alberto se aproxima com o lança-chamas. Steve sente o calor…

- Tá bom, tá bom!- grita o desesperado servo.- Eu conto com quem está! Eu conto!

Uma expressão, misto de dúvida e surpresa, surge no rosto do vampiro:

- Como assim, “com quem está”?

- Bem senhor, é que… hã… eu já o vendi.

- Você o quê? Seu bastardo maldito! Como ousou fazer isso?

A dúvida transforma-se em ódio. Uma irada criatura das trevas agarra um apavorado mortal pelo colarinho, com seus olhos vermelhos e caninos salientes. Um dos homens que o acompanhavam intervém:

- Por favor senhor, acalme-se!

Erick se recompõe. Realmente, o momento não era apropriado para perder o controle. Acende outro cigarro, saboreia-o por um tempo e friamente aguarda que aquele idiota fale. E Steve continua, temeroso:

- Eu vendi tudo para Caroline, o senhor sabe, a artista plástica.

O vampiro permanece calado por um instante que parece uma eternidade. E então fala:

- Caroline. Essa criança da noite insignificante está começando a se tornar um incômodo. E incômodos devem ser eliminados, começando por você, Steve.

Ele se espanta:

- C-c-como? Eu disse o que você queria! Isso não é justo!- ele tenta se libertar, mas
em vão. – Eu faço o que você quiser! Por favor! Não me mate!

Erick olha o estado deplorável em que se encontra um de seus mais úteis vassalos e quase sente pena dele. Mas então diz:

- Você me dá nojo Steve. A vida, e a pós-vida no meu caso, não foi, não é e nunca será justa. Além do mais, não lembro-me de ter dito que sairia vivo daqui. Quanto a cadeira, pura e simplesmente compro outra. Alberto, só espere eu sair. Tenho uma reunião agora e seria horrível chegar cheirando, ou melhor, fedendo à fumaça.

Assim que a seu patrão se retira, Alberto fecha a porta e a temperatura aumenta…

1 Resposta para “A Confissão Final”


  1. 1 Bruno/DG

    Muito legal este… já tinha lido antes.

    á procurou “o protagonista” no google?
    Tive uma surpresa interessante…

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