Desde o primeiro sarau ao qual eu vim
Eu tenho feito de tudo para ofender
Chocar
Traumatizar
Não queria aplausos, elogios.
Queria reações de nojo, espanto.
Xinguei vocês de filhos da puta
Os mandei tomar no cu
Simulei masturbação.
E cada vez mais era mais aplaudido.
Virei mito.
Era aguardado em cada edição do evento.
Minha não presença fazia falta.
E eu vos pergunto
Por quê?
Mais de metade das poesias que declamei
Nem minhas eram.
Me admiram pela minha atuação?
Acreditem
Eu passo o mês inteiro ensaiando.
Qualquer um aqui faria melhor
Mesmo porque tenho problemas de dicção.
E em vez de se mexerem
Serem melhores que eu
Um estranho que invadiu o espaço de vocês
O que fazem?
Me dão mais e mais espaço.
Ficaram chocados porque no último evento
Estapeei e fui estapeado
E depois beijei um homem?
O que vão esperar para retomar o que é seu?
Que eu mije na cara de todos?
Que eu cague no palco e jogue em todos?
Acordem, mexam-se.
O sarau é de vocês
Não só meu.
Usem seu espaço, seus merdas.
E até a próxima.
Salva de palmas…
Esqueceu o “não me aplaudam, idiotas…”
:::