A Garotinha Ruiva

Merda. Plena sexta-feira a noite e ninguém a fim de sair. Quem manda ser o único solteiro da turma? Devem estar todos beijando, se abraçando, de repente até transando eu aqui na Paulista andando à esmo. Acho melhor eu pegar o metrô e ir pra casa.

Grande, o metrô fechou. Só então me toco de olhar no relógio e vejo que já é meia-noite e meia. Só volto pra casa agora depois das quatro da matina, nem fodendo vou pegar ônibus agora. Não tô com saco pra ficar pulando de terminal em terminal. Acendo um cigarro e fico esperando que alguma coisa aconteça. Um sinal, algo, uma mina, sei lá.

Hum, mina. Bem pensado. Nessas horas malditas sempre dizem que uma transa resolve tudo. E que melhor lugar para arrumar uma transa que na Augusta? Tá certo que nunca fiz isso, mas tudo tem uma primeira vez na vida. E sempre me falaram que tem umas putas da hora por lá. Só espero que meu dinheiro dê.


Não estou exatamente “descendo a rua Augusta a cento e vinte por hora”, mas pelo menos não vou passar a noite em branco. Então sentada num barzinho de esquina, algo me chama a atenção. Ruiva, gostosa, olhos cinzas (deve ser lente, mas ficou legal mesmo assim), toda de preto e fumando. Um charme só. Só que ela está com três caras. Será que é puta? Não parece. Tem mais jeito de amiga deles. Mas e se um dos caras for namorado? Quase por instinto, paro para fingir que vou amarrar meu tênis. Ela mais a trupe se levantam e seguem Augusta abaixo. Eu vou atrás. Devo estar ficando louco. Seguir uma mina que está com três caras é pedir pra arrumar confusão. Ah, foda-se. Sempre se dá um jeito de escapar.

Então eles entram em uma porta, todos. Paro em frente e analiso. Uma porta de ferro aberta. Sem placas, adesivos, luminosos. Nada indica que lugar é esse. A porta dá num corredor pintado de laranja, onde antes de uma escada tem um cara numa mesinha. A ruiva mais a turma param lá e parecem pegar comandas. Será que isso é um bar? Curioso com tudo e ainda querendo a ruiva, resolvo entrar.

O rapaz da mesa, um cabeludo, me diz um simpático “boa-noite” e pergunta meu nome. Diz que hoje o preço é cinco de entrada, que inclui uma hora de internet grátis, guarda volume e o ingresso do show de hoje. Pego a comanda e finalmente descubro o nome do lugar. Saravejo Internet Bar. Nome exótico. Ponho a porcaria da comanda no bolso e subo as escadas.

Saio num lugar que me dá duas opções de ir. Uma pra uma sala escura que possui outra escada e uma sala grande que termina no que parece ser o bar. Resolvo ir buscar uma bebida. Depois eu caço a ruiva.

O som do lugar é legal, parece que deixaram o rádio sintonizado em alguma estação de rock, provavelmente a Kiss. A caminho do bar, dou uma olhada na galera que frequenta o local. Um pessoal meio hippie, outros com cara de intelectual, alguns com pinta de heavy metal e até uns manos e patricinhas por aí. O lugar tem um quê underground, mas parece eclético o bastante para aceitar qualquer um.

Sou atendido no bar por um sujeito que é a cara do Lenny Kravits e para minha surpresa o preço da garrafa da breja é barata. Resolvo dar uma de gringo e pedir uma Bohemia. Dou um gole, acendo outro cigarro e estou pronto pra voltar a procurar a ruiva.

Na volta pelo salão, nem sinal da ruiva, me resta a sala escura. No caminho até as escadas, acho uma outra salinha e resolvo dar uma olhada. Um carrinho de mercado transformado em cadeira, luzes vermelhas e um casal se amassando. Acho que não é esse o lugar.

Do lado das escadas acho o anteriormente falado guarda-volumes. E só agora paro pensar que cinco paus de entrada, show, internet mais guarda-volume sai realmente barato.

Então reparo que, atrás de um monte de gente embolada, tem uma outra sala. Pelo som, acho que o show é ali. Como paguei por essa porra também, resolvo dar uma conferida. Empura daqui, “com licença” dali, entro na sala. Ela é iluminada com uma luz azul, suficiente só pra ver quem está tocando. E lá no meio da outra parede, tem um cara que parece fugido do Led Zepellin tocando cítara. Olho ao redor nada da ruiva. Uma coisa que me chama a atenção é que não tem ninguém conversando. Todos estão vendo o cara tocar. Sem entender nada, tento ver o que há de tão especial no cara. Realmente, o cara manda bem e o clima favorece a apresentação. Fica até meio surreal, hipnótico…

Só volto a mim quando a cítara pára e o pessoal aplaude. Acho que viajei demais no som. Valeria até a pena ficar mais um pouco, mas não entrei pra ver o show.

Subindo as escadas, descubro os banheiros e mais algumas surpresas. Tem um brechó aqui e uma sala de cinema. Não parece muito grande, que tipo de filme rola aqui? Dou uma rápida olhada no brechó. Um monte de roupas e acessórios e umas minas bonitinhas. Nem vou entrar.

Subo mais um lance de escadas e saio em outro salão. O som mudou aqui, tá rolando algo meio anos 80. Finalmente encontro os computadores para acessar a net. Num bar desses, cheio de gente, tem quem resolve ir ao mundo virtual. Vai entender. Ao lado de uma mesa cheia de livros em várias línguas, encontro quem eu procurava, e infelizmente com os três amigos.

Sigo analisando a situação. Não está de mãos dadas com ninguém. Não usa aliança. Parece tratar os três de forma igual. Mas pode rolar algo com algum deles. Preciso dar um jeito de descobrir.

Ela se levanta e desce as escadas. Foi ao banheiro. Reparando nos caras, um deles está com uma camiseta do Chê. Posso colar nele como quem não quer nada para falar dele e aí papo vai, papo vem, descubro sobre a ruiva. Bem pensado.

Dando uma de mané, me aproximo fingindo que estou interessado nos livros. Um dos três, um cabeludo, me pergunta:

- Sabe se dá pra comprar esses livros?

Yes! A chance que eu esperava! Respondo:

- Ixi cara, primeira vez que venho aqui, nem sei.

Os dois ficam se olhando com aquela cara de “pois é né”. O da camiseta se aproxima:

- Sem querer abusar mas já abusando, poderia me arrumar um cigarro?

A coisa está saindo melhor que o esperado! Logicamente, dou o cigarro pro cara e começo meu plano:

- Louca sua camiseta.

- Valeu. Nem uso muito, sabe? Essa imagem ficou muito pop.

Putz, vai ver que o cara é meio revolucionário. Fico meio sem saber o que responder, mas eis que a ruiva volta, me olha e diz:

- Olá. Quem é? Amigo de vocês?

Todo mundo se olha e o da camiseta diz:

- Bem, a gente se conheceu agora, nem sabemos os nomes um do outro.

- Verdade. – respondo sem jeito.

Então nos apresentamos e eles apresentam a ruiva como “amiga”. Se Deus existe, ele está do meu lado hoje. Vem aquele papo básico de “como descobriu o lugar”, “de onde você é”, “que som você curte”, etc e tal. O pessoal é bastante simpático e o papo vai ficando interessante. Aproveito as deixas possíveis para lançar olhares para a ruiva. A certa altura, o terceiro dos caras se levanta e diz, meio que rindo:

- Acho que vou descer pra ver banda, alguém mais vai?

Será que dei muito na cara e eles perceberam? E agora? O cabeludo e o da camiseta olham um pro outro, dão uma risadinha cínica, levantam e acompanham o cara, falando que “iam pegar uma brejas e já voltavam”. Me encontro sozinho com ela. É agora ou nunca. Respiro fundo e mando:

- Sabia que entrei aqui só por sua causa?

- Como assim? – ela responde intrigada.

- Bem, eu tava descendo a Augusta, te vi num botequinho e, bem, te segui pra ver no que dava. Acabei vindo pra cá.

- Sério? Que meigo! – diz sorrindo.

Me aproximo um pouco mais e coloco meu braço atrás dela no sofá. Mudo de assunto:

- Legais seus amigos.

- Gosto muito deles. A gente sempre sai junto.

- Já conhecia aqui?

- Só um deles. Ele falou tanto que resolvemos vir. Gostei, sabe?

Hora de retomar o xaveco.

- Também gostei, mas não só do bar.

Ela faz uma cara de “você está me cantando e eu sei” e pergunta:

- E do que mais você gostou?

- Acho que é um pouco óbvio… – me aproximo e rola o beijo. Não é que ela beija bem? Mas no meio do segundo beijo, sou interrompido por um grito.

- Score!

Olho e estão os três amigos dela cascando o bico. Ela então explica que aquele grito é uma gíria deles para “faturou”. Acho que devem ter percebido minha cara de “boiei”. Eles então voltam a descer. Quer dizer que os filhos da puta subiram só pra zoar? Devo ter dado muito na cara mesmo. De novo a sós, voltamos a ficar.

No final de tudo, apesar de não ter transado (os banheiros eram muito lotados, não tinham trinco e ela não deu a menor brecha pra isso) e ter voltado pra casa só as cinco da matina, dormi feliz. Conheci um lugar supimpa, uma galera legal e sabe o melhor de tudo? A ruiva mora perto da casa! Acho que domingo vou na missa agradecer a alguém…

10 Respostas para “A Garotinha Ruiva”


  1. 1 jan

    As ruivas SEMPRE são as melhores…

    *saudade!

  2. 2 Titia Sandra

    Puxou a tia, hem malandro? Vai escrever bem assim, lá em casa!!!!
    Parabéns, estou orgulhosa de você e por você estar conseguindo o que eu não consegui, por si próprio e de maneira honesta. ( ih, esse papo de tia babona não combina com a ocasião, né? Paro por aqui se não vou chorar e inundar sua home page ( acertei? )).
    Como tia nasceu para ” encher o saco ” dos sobrinhos, se você precisar de assessoria ( é assim que se escreve, tá? e não como constou na entrevista anterior )estou à disposição!
    Beijooooooooooos.
    Da sua Tiazona Sandra.

  3. 3 Alessio Esteves

    Valeu o comentário e a “açeçoria”!!!

  4. 4 Irith

    É meio infantil, mas preciso comentar: cliquei na continuação do post só por conta do título ( sempre fui fã da “garotinha ruiva” do Snoopy^^).
    E não é q gostei? Vc realmente tem um jeito bacana de contar histórias.

  5. 5 Dante

    Cabeludo é ótimo né?
    Sarajevo Cronicles não é de “guerra”, mas tb não tem “paz”!

  6. 6 Ju

    Entrei pra ver a fotinho do matrix e acabei parando nesse texto. Mto legal ele, Alessio.

    Mas vacilou Aléssio.. Ruiva?? Pareceu bem vulgar a descrição da mina :p

    Bjão e te vejo amanhã!

    Obs.: Aliás a gente podia tomar uma breja né?!

  7. 7 Chibi

    Hahahhah Curtia a história !
    Agora achei o máximo vc não conhecer “Score!”
    AaHuahUAHuAHuHAuAHUAHuaHuaa
    Tua cara na hora deve ter sido impagável hahaha

  8. 8 Raul O'Bedlam

    merda por que não tem lugares desse jeito aqui em SLS?

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