(entrevista realizada em 2003, quando Saladino era editor-assistente da Dragão Brasil. Atualmente ele é um dos editores da Marvel pela Panini Comics e colaborador de Dragon Slayer.)
Alessio – Gostaria que falasse um pouco sobre seu passado, onde nasceu, no que é formado, o que fazia antes de trabalhar com RPG…
Saladino – Bom, sou nativo aqui de São Paulo mesmo, capital. Freguesia do Ó, pra ser mais específico ainda. Nasci em 1971, sou veião já, tô cruzando o… o carro. E sou formado em jornalismo pela Faculdade Casper Líbero, Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero e já trabalhei com outras coisinhas envolvendo jornalismo. Já trabalhei com assessoria de imprensa… Mas aí apareceu a oportunidade de trabalhar na revista Dragon Magazine, da Abril, da Editora Abril. Eles tavam começando a trabalhar com RPG eles queriam alguém que conhecesse a revista. E na época eu colecionava a Dragon Magazine.
Alessio – E você já trabalhava na Abril?
Saladino – Não, não. Eu trabalhava na acessoria de imprensa e nessa acessoria de imprensa tinha pessoas que trabalhavam na Abril. E esse pessoal “Porra, conheci um amigo meu que trabalha lá na Abril e que precisa de alguém que conhece, que jogue RPG“. Aí eu falei “Eu conheço”. “Aí então vai lá e fala com ele.” Aí beleza, eles tavam desesperados, com a revista pra sair daí há um mês, dois meses e não sabiam nada do assunto. Pegaram, falaram “ô você quer vir aí”, conversei com ele, tudo e fiquei lá pra trabalhar com a revista.
Alessio - Todo o material da revista era traduzido ou haviam matérias nacionais?
Saladino – Havia um contrato que dizia que 60% da revista era de material traduzido e o restante era material nosso, quadrinhos, matérias feitas aqui. Tinha muito material feito aqui e isso foi umas das coisas que eu realmente bati o pé pra ter, porque Dragon americana era feita pra um público totalmente diferente do nosso. Se vocês forem fazer pro mesmo público vocês vão estar jogando dinheiro fora, porque a Dragon já existe há 25, 20 anos, nem tanto, algo assim. E pegar todos esses 20 anos e chegar aqui “O leitor que não sabe o que é RPG, tá aqui” com materias avançadas não ia dar certo. Então eu precisava de matérias nacionais mais próximas do leitor daqui.
Alessio – E quais foram as diferenças entre o leitor nacional e o norte-americano que você notou enquanto trabalhava na Dragon?
Saladino – Por exemplo, é… depende da área de assunto. A Dragon nasceu com muito leitor de wargame e era muita mais uma revista de wargame do que só de RPG. Então você falava muito sobres jogos de miniatura, falava de muitos jogos que aqui na Brasil a gente nem sabe o que vem a ser. Então falar sobre esses jogo era meio… inútil. Não vou falar, por exemplo, de tipos de personagens pra Top Secret, que é um jogo que a TSR lançou, não foi sucesso lá, mas teve suplementos e aqui no Brasil cinco pessoas tinham esse jogo! Então pra quê eu vou colocar esse matéria aqui? E tem outra coisa, o leitor americano, ele tinha uma centena a mais de títulos que a gente. Agora a gente tá com uma variedade grande de títulos, mas lá era muito, muito, muito, muito mais.
Alessio – Como você conheceu o RPG?
Saladino – Eu tenho duas versões pra essa resposta. A primeira, aquela romântica, bonita, é que a muito tempo atrás eu passava numa exposição de livros portugueses da Marques Saraiva e eu vi, não eram livros portugueses, mas achei que eram por causa do formato, os livros-jogos. Eu achei a idéia dos livros jogos-genial! Era um livro que você mudava… Mas assim, eu vi e nunca mais achei. Pensei “pô, interessante isso aqui”. Aí, quando eu tava fazendo faculdade, o namorado de uma colega minha jogava, então ele me explicava mais ou menos e eu, infelizmente, não entendia. Até que um deles, um dos caras da faculdade, que fazia parte da Frota Estelar Brasil, me chamou pra ir numa convenção de Star Trek, e eu falei “tá bom, né?” e tinha uma mesa em que o pessoal tava jogando RPG, GURPS Star Trek. Aí eu fiquei do lado tentando entender o que era o jogo e foi qí que eu falei “Ah! É assim!”. Fui dar palpite, falar com o pessoal e eles falaram “você não quer vir semana que vem já começar a jogar?”, aí beleza, comecei a jogar e tô aí até hoje. Por isso não sei dizer pra você se o primeiro contato foi com o livro-jogo ou com o Star Trek RPG, por isso ao seu cargo.
Alessio – Qual o RPG que você gosta mais?
Saladino – Tecnicamente eu não poderia dizer como editor, né? Mas eu sou um fã assumido de D&D, Dungeons & Dragons, o Advanced. Agora, com a terceira edição do D&D eu acho que ele está coerente eu sou um cara que, na dúvida, eu sei jogar bem D&D.
Alessio – Tem algum RPG que você não gosta?
Saladino – Olha, é difícil porque normalmente o que eu não gosto não é o jogo em si, mas é o mestre que joga ruim, aquela aventura que tá sem graça. Dificilmente eu boto a culpa no jogo, boto muito mais a culpa no mestre… Existem jogos que não me atraíram jogar. Por exemplo, Wraith é um jogo que não me atraiu. Eu olhei e falei “tá, mas… qual é a graça?”, eu acho que não dá pra você se divertir. O Wraith a proposta não é divertir, é terror e tal, então aquilo não me atraiu. E tem outros, assim, que não apresentam nada, algum outro é melhor. Por exemplo, o Trinity… eu vi, conversei com o autor e mesmo assim não me bateu jogar.
Alessio – E a Dragon Magazine? Acabou por que?
Saladino – Ela acabou… acho que seria errado dizer uma burrice editorial, mas eu acho que a Abril queria muito mais da Dragon Magazine do que ela poderia dar no momento. Haviam umas idéias toscas que foram mantidas, a idéia de sempre ter um pôster, a idéia de você sempre dar um brinde, fazer sempre capas lindas e maravilhosas e todas essas filmagens que eram usadas eram pagas. Então, de repente, a revista acabou ficando cara e o retorno dela não era suficiente pro que ela gastava. Então você precisava de alguém pra fazer o que eu chamo de “picaretagem”, pra reaproveitar uma imagem, de fazer uma matéria mais, mais… útil pro jogador do que simplesmente botar alguém lá que diz “ó, essa matéria é mais interessante” e eunão vou falar que “eu saí de lá e por isso a revista fechou”, mas você concorda que é estranho você manter uma revista sobre RPG e não ter ninguém que saiba sobre RPG. Porque teve um corte de pessoal na Abril eu saí porque eu era novo lá. Imediatamente pensei “bom, se você vai cortar o cara que manja de RPG, corta a revista também”. A revista durou mais dois números usando pautas que eu já tinha definido e depois, dava muito trabalho pra fazer aquela revista. Dá muito trabalho fazer revista e a redação não tava preparada pra aquilo. Então eu não sei se a abril talvez tivesse ritmo pra fazer uma revista de RPG.
Alessio – Como foi sua transição pra Dragão Brasil?
Saladino – Foi leve e eu acho até engraçada. Porque desde que eu entrei na Dragão Brasil, eu sempre tive uma relação muito boa com qualquer um que escrevesse em outra revista. Eu conheci o Marcelo Cassaro logo nos primeiros dias, ele já foi um colaborador da Abril, já fez vários trabalhos pra Abril e o pessoal de lá conhecia ele e ele chegou a colaborar com a Dragon, com algumas histórias que ele escreveu e a gente conversava, batia papo sobre “n” coisas e mesmo as pessoas que faziam outras revistas, eu sempre conversei, nunca tive problemas nenhum. Quando eu saí da Dragon, passado aquele período de depressão, que eu fiquei assim “ninguém gosta de mim”, aí o Cassaro veio falar comigo, que eu já tinha feito umas colaborações pra ele, e “meu, vem pra cá, trabalha com a gente! Você se importa de escrever uns negócios pra gente?” e eu falei “não!”. Aí a gente começou a trabalhar e pegar o ritmo porque a Dragon Magazine era uma coisa, a Dragão é outra, outra forma de escrever, tudo. Depois que eu entrei “fica aí, começa a trabalhar mais, fica como editor durante um tempo, editor-assistente” e acabei ficando.
Alessio – Como você define a linha editorial de Dragão Brasil?
Saladino – A Dragão Brasil é uma revista pra jogador de RPG em geral pra principiante em especial. Ela pode ser… ela não é necessariamente uma revista muito profunda, mas ela é o que eu chamo de “interessador”. Por exemplo, a gente escreve matérias pro jogador principiante pra que ele tenha pelo menos uma noção do que ele pode fazer. Ela não dá a palavra final sobre um assunto, mas é ela quem fala “ó, começa a discutir sobre isso”. Muita gente fala “Ah, mas a Dragão não é tão boa agora quanto era antes”. Na verdade, ela é. Na minha opinião, ela é tão boa quanto antes, mas é que aquele cara que lia antes cresceu. A Dragãoo existe a 6, 7 anos, então se o cara começou a ler a Dragão com 15 anos, ele tá com 21, 22 agora. Ele tem acesso a revistas importadas, outros materiais, ele quer mais. A Dragão não é revista pra esses caras, é revista prum garoto de 10, 12 anos que fala “Meu, quero jogar RPG, mas tudo que eu sei é Pokémon, e aí?”. A gente tenta falar de uma forma mais simples, sem chamar o leitor de retartado, tá? Mas a melhor forma de definir, foi uma coisa que eu ouvi a respeito do Star Trek. O cara que lê Dragão é um cara que mora longe, que acha que é o único da cidade dele que curte RPG e que encontra na Dragão um colega, um cara que senta do lado dele e conversa com eles sobre assuntos que ele gosta, de RPG, de jogo, etc.
Alessio – Vocês tentaram fazer alguma coisa pra agradar os rpgistas veteranos?
Saladino – Nós tentamos. Nós tentamos e foi um fracasso.
Alessio – Qual foi a tentativa?
Saladino – Não sei se você lembra, mas durante um tempo a gente teve uma revista-irmã, chamada Só Aventuras. A gente sempre se perguntou “Pô, vamos fazer um negócio mais profundo, né?” e na época tanto eu quanto o Trevisan participávamos de listas de discussão e falamos “Vamos fazer uma revista com o material que o pessoal de lista fala que é legal a gente fazer”. A gente fez um número da Só Aventuras só com esse material. Foi a revista que menos vendeu.
Alessio – Qual era a matéria da capa?
Saladino – Se eu não me engano, era uma azulada com um punk, que falou do Anarch Cookbook, que não tinha regra, foi a que menos vendeu! E volta e meia a gente acompanha as revistas, quanto vende, porque é necessário, a gente precisa saber disso.
Alessio – Como é feita a Dragão Brasil?
Saladino – Normalmente, o Cassaro tem uma idéia e fala “Olha, eu acho que ia ser legal fazer isso, isso e isso”, aí ele vem, conversa comigo, ou com o Mauro, ou, quando dá, com os dois juntos. Aí depois da conversa, então fica “você escreve isso”… Geralmente, a gente já pensa a matéria pensando em quem vai escrever. Têm coisas que o Mauro escrevre, têm coisas que eu entendo melhor que o Mauro, tem coisas que o Cassaro fala “Já tô com a idéia e vou escrever”. Acaba sendo um pouco mais natural, porque estamos no número oitenta e tralalá, então a gente já sabe quem escreve melhor sobre isso. resenha é que é uma briga. Chegou tal livro, então quem é que vai resenhar? Se o livro é legal, todo mundo quer pegar, né?
Alessio – E vocês decidem como? Palitinho, duelos…
Saladino – Não tem muita briga não. Fica aquela coisa “Eu resenho esse, você resenha aquele”, então tá bom, né? Não precisa rolar roleta pra isso.
Alessio – Em relação aos desenhos, vocês costumas dar alguma indicação ou fica uma coisa meio livre?
Saladino – Depende do desenhista. Depende do que a gente tá passando. Eu, Rogério Saladino, prefiro chegar pro desenhista e falar “Olha, é legal fazer uma coisa assim” quando eu tenho tempo. “Eu prefiro fazer um negócio assim”, “Faz o cara assim, segurando o braço…”. O Cassaro, dependendo de qual desenhista ele vai pegar, ele faz. Por exemplo, o Joe Prado, ele também joga RPG, então as vezes só passando o texto pra ele, o cara já tem uma idéia legal do que fazer. O Vazzios é um tremendo criador, então você passa e diz “Olha, eu quero uma coisa assim”. Depende muito de desenhista e da matéria em si.
Alessio – Quando surgiu a idéia inicial de Tormenta? Como você se sentiu quando a coisa estourou?
Saladino – O Tormenta tem um nascimento retroativo, como costumo dizer, porque a gente começou a ver, lá pelo número 40, que tinha que fazer alguma coisa especial no número 50! Porque, pô, 50 números são 50 números, não é toda revista que tem isso. Aí a gente pensou “Pô, a gente tem quase um mundo pronto”. Porque depois de tanto tempo de aventura, suplemento, NPCs, armas mágicas, tudo, meu, a gente já tem um mundo pronto! Aí surgiu a idéia da gente juntar isso, costurar um mundo, criar o que precisa, porque, se juntar, vai dar uns buracos mesmo e se preparar pra aí, criando a partir do que já tava feito, ir alterando até encaixar nesse mundo. Ele é um mundo colcha de retalhos que a gente tá fazendo o máximo pra dar uma unida. Tem coisas que a gente só vao conseguir resolver agora com o Reinado e depois quando a gente for falar dos deuses. É bem fazer um mundo extra. Porque cenário de fantasia medieval a gente tem, tinha, muito pouco no Brasil. É uma boa idéia, o jogador vai ter… e ia facilitar pra gente, porque as matérias, as aventuras, já iam ficar no mundo de Tormenta. Em vez de dizer “Olha, essa vila fica onde você quiser. Não, essa vila fica aqui”. Depois, se você quiser mudar, você pega o lugar e coloca. Só que aí aconteceu um boom, o pessoal, um monte de gente comprou Tormenta, deu mais interesse do que a gente imaginava. A gente começou a receber carta pedindo mais coisa. Aí que a gente reparou que colocando em banca de jornal, essas coisas, o leitor acabou tendo muito acesso. Então dá pra gente investir, tanto que a gente acabou fazendo revista, mais produtos pra essa linha. A gente tem um interesse muito grande de fazer livros de RPG pra Tormenta fora da Dragão, coisas mais diferentes.
Alessio – Costuma se falar que é muito fácil achar as referências do que inspirou Tormenta.
Saladino – Depende.
Alessio – Qual a sua opinião sobre isso?
Saldino – De forma alguma isso denigre o mundo de Tormenta. Se você for pegar qualquer mundo medieval, qualquer mundo de RPG, você identifica as referências tão fácil quanto eu ou qualquer outra pessoa. Eu sempre cito Forgotten, porque se você pegar o mapa de Forgotten, é a Europa, não tem muito o que mudar, só falta a África ali. Se você pegar o mapa completo, tem a Europa, a América, só falta a África. Então eu não vejo demérito nenhum, porque quando a gente pensou o mundo de Tormenta, a gente falou “Olha, vai ter que ter um lugar oriental”, porque é pra poder ter samurai, porque senão aparece neguinho falando “Quero jogar com samurai”. Vai ter que ter deserto porque o cara vai querer jogar no deserto e a gente acabou pegando e… É impossível pra mim escrever sem fazer referência, que é divertido, que é legal. Por exemplo, tem um reino em Arton chamado Hershey. Eu falei “Ah!Vamos fazer um negócio tipo Suíça” Beleza! Vai se chamar Hershey, porque é um chocolate que eu acho legal, tudo. E no meio do texto, se você ler o Reinado, você vai ver que tem algumas referências a chocolate no meio, a nomes de chocolates e eu faço isso porque? RPG é pra você se divertir, sabe? É pra você dar risada, é pra você, pra você… se sentir bem! E, se eu me sinto bem enquanto estou escrevendo, tenho certeza de que essa sensação legal, agradável, vai passar pro leitor. “Ah, mas vai ficar uma coisa ridícula”, naõ vai ficar ridícula, garanto pra você que não vai. As referências são ruins? “Ah, mas eu não gosto do Paladino”, então não usa aquela referência. Se acha que é ridícula, não usa, usa outra. Eu tenho um mundo inteiro, um continente gigantesco, mas “Ah, eu não gosto de Hershey”. Tá bom! Faz ele ficar do outro lado. Não tenho problemas com isso.
Alessio – E quais são os personagens de Tormenta que você criou?
Saladino – É engraçado porque têm vários personagens que a gente acabou criando conjuntamente, um pouco eu, um pouco o Cassaro, um pouco o Mauro. Algumas coisas seguiram um rumo contrário. O Vladslavi não era um personagem, era um pseudônimo. Ele virou um personagem e eu adoro o Vladslavi! Falei com o Cassaro, quero ver se escrevo histórias daquele grupo do Paladino antes dele virar Paladino. Eu gostei muito do Galtran! Em particular, eu gostei muito dos vilões que eu criei.
Alessio – Quais seriam?
Saladino – Em especial gosto muito do Nekapeth, que é clérigo de Sszzazz. Gosto muito do Sszzazz, que eu acho excelente, um vilão maravilhoso, gosto pra caramba dele. Eu gosto muito do Camaleão, qu eu escrevi uma história com ele, uma só. Eu falei “Me dá esse vilão na minha mão que ele vai fazer um arraso!”, e tem vários outros pequenos personagens que eu vou olhando e vou falando “Meu, esse cara é legal. Se eu tiver tempo, se eu tiver como mexer com ele… “. Por exemplo, o Príncipe Yuden, acho que é um personagem que dá umas coisas legais. No Reinado a gente tá fazendo, eu pelo menos, tô escrevendo um reino e toda vez que eu cito um personagem que eu acho interessante eu separo e guardo em outro arquivo que é pra poder futuramente fazer um livro só com os NPCs famosos de Arton. Eu acho que nessa hora vai dar pra desenvolver muito isso e isso vai ficar legal.
Alessio – Quais são seus próximos planos pra Tormenta?
Saladino – Bem, eu costumo dizer que os próximos planos de Tormenta a gente só vai saber depois que acabar o Reinado, mas não é bem verdade. A gente já tá fazendo Reinado, que é um trabalho hercúleo, porque é coisa pra chuchú e depois a gente quer fazer o Tormenta pra D20 e pra isso aí a gente vai ter que pensar muita coisa e vai dar algumas dores de cabeça. Em seguida, a gente quer pegar os clérigos e os deuses, também vai ser muita coisa, vai ser bastante coisa… Até aí a gente vai ter um bom tempo passado e agente vai ver o que tá brotando. Existe uma idéia de fazer um materail pegando Tamu-ra antes de ser destruída pela Tormenta, mas por enquanto é só uma idéia. Um colaborador meu tá pegando no meu pé que ele quer fazer o Deserto da Perdição, ele quer a Grande Savana e o Deserto da Perdição e a gente tá esperando pra ver. Vamos primeiro acabar o Reinado que é a base e depois vem os clérigos.
Alessio – Tanto na Dragão Brasil quanto na Tormenta, como que funcionam as colaborações? É com as pessoas que vocês conhecem pessoalmente, ou um cara tem uma idéia boa e vocês chamam depois…
Saladino – É um pouco dos dois, um pouco dos dois mesmo. Porque eu falo “Você quer trabalhar com RPG? Quer trabalhar na DB? ” Manda texto pra gente! Manda texto, vai mandando. Pode até não ser publicado logo em seguida, mas se o texto for bom, for legal, a gente entra em contato, por e-mail, por telefone e fala “Ó, gostei do texto, quer ainda publicar?” e a gente conversa. De repente, se o cara escreveu uma, duas vezes e o texto tá legal, a gente acaba pedindo “Ô, vamos pedir pra cara de lá fazer aquela texto lá, que ficou bom daquela vez”. O Marco Poli, por exemplo, é um amigo meu antigo, eu já jogava RPG com ele, tudo e volta e meia ele me dava umas sugestões muito boas, escrevia umas coisas muito boas. Uma vez eu perguntei se podia usar um material dele, ele falou que podia, só precisava passar pro papel. Ele passou, ficou bom. Como é amigo meu e tenho contato, eu passo coisa pra ele, o que tá ficando cada vez menos frequente, porque ele é médico… Mas é um pouco dos dois. A gente sabe quem escreve bem sobre determinado assunto e a gente recebe o material. Por exemplo, no próprio Reinado, teve um rapaz que escreveu sobre os halflings, que foi o cara que escreveu a matéria dos halflings que saiu na DB. Agora que a gente escreveu o Reinado, a gente falou “Pô, vamos passar pro cara, né? Ele falou dos halfings, vamos dar o reino deles pra ele escrever!”. E foi o que aconteceu.
Alessio – Vocês recebem muita coisa?
Saladino – A gente recebe bastante material, mas não sei dizer pra você quanto seria muito.
Alessio – E qual a qualidade da maioria dele?
Saladino – É mediana, mediana. Não falando que os meus colaboradores são ruins. Eu costumo falar brincando que se eu ganhasse 1 real pra cada clã de Vampiro que eu recebo que mexe com fogo, eu não precisava mais trabalhar.
Alessio – Vocês lançaram o Temporada de Caça, ele teve a mesma repercusssão do Tormenta, ou foi mal aceito pelo público?
Saladino – Olha, a gente fez o Temporada de Caça porque muita gente falou “Faz o mesmo que vocês fizeram, porque é legal”. Bem, vamos fazer! O retorno foi razoavelmente… indiferente. Teve gente que falou que teva legal, teve gente que falou que tava uma porcaria e o número de vendas da edição onde veio o Temporada de Caça foi o mesmo número de vendas normais da DB, quer dizer, a gente não sabe se o jogador de Vampiro não quis comprar, ou se tava ruim ou bom. Não dá pra saber.
Alessio – Não seria porque o Tormenta funciona você não tendo as DB ou não e no Temporada de Caça você precisa ter as revistas?
Saladino – Nem tanto, nem tanto. A gente reuniu no Temporada de Caça o que saiu nas edições anteriores de Vampiro e a gente achou que podia juntar e, na minha opinião, ele tem muito material novo ali, só que ele precisa do Vampiro, lógico! Então o pessoal quer mais detalhes? Realmente, o pessoal vai querer o mapa do Masquerade, vai querer ver outra aventura. Eu não caho que ele seja tããão incompleto. É que depois saíram mais matéiras que, se gente tivesse tempo, tinha colocado no Temporada da Caça, com a dos golens, aventura, mas… não acho que ele seja tão incompleto assim. Eu acho que é porque não havia tanta carência, porque o Tormenta chegou numa área que tinha carência, você não tinha monstros e cenário de fantasia medieval. O Tagmar não era publicado fazia muito tempo, o GURPS Fantasy não era publicado fazia tempo, o AD&D tava longe de vir pra cá. Mesmo o AD&D só tinha as regras, não tinha cenário. Você compra o AD&D e tá, vai jogar aonde? O Vampiro não, já tinha cenário, tava no livro. Então, o Temporada de Caça era só um negócio a mais, que nem sempre interessa pra você.
Alessio – O que você faz além da DB?
Saladino – Atualmente, com essa brincadeira de fazer coisas pra Tormenta, tanto pra DB quanto pra Daemon, eu vivendo só disso. Antes eu também fazia traduções, alguma coisa de adaptação, já fiz diagramação de manual pro Senac, mas da parte editorial e gráfica.
Alessio – E quais são suas principais referências?
Saladino – É bem difícil dizer, porque é muita coisa, muita, muita coisa. Sou um leitor ávido de livros. Tenho lido muita coisa, muita coisa clássica.
Alessio – Tem lido muito algum autor?
Saladino – Eu poderia dizer Tolkien mas aí eu ia estar sendo muito oportunista, porque na verdade eu li muito pouco de Tolkien. Atualmente, estou gostando muito de ler Terry Prechet, do Discworld, que eu acho divinamente fantástico. Neil Gaiman é uma referência, não dá pra falar que não leu o cara. E quase tudo de clássico eu tenho lido. E, de fantasia medieval, eu sou muito fã de Michael Morcook, autor do Elric. Sou fã de carteirinha, se eu souber que ele vem pro Brasil e só vai passar no Acre, eu vou lá falar com ele. Mas eu acabo pegando referências de muitas outras coisas, filmes… Shakespeare, por incrível que pareça, e ninguém percebe. Vários filmes clássicos, Terry Gillian, filmes de terror antigo, desenhos antigos, gibi antigo,muita, muita coisa.
Alessio – Você já acostumou com esse negócia de ser uma estrela no mundo rpgístico?
Saladino – Eu acho isso divertido, não vejo isso tanto como estrela. Eu vi uma vez o Zico falar isso e eu concordo com ele, nós que trabalhamos com isso, a gente meio que invade a privacidade de pessoas, do leitor, do espectador. A gente não pede permissão, a gente invade, tá lá. Então é meio obrigação dar atenção pro leitor quando a gente tem tempo. Quando o cara encontra na rua e pede autógrafo, eu ainda acho meio engraçado. Poxa, eu tenho os meus autores, atores que eu gostaria de pedir autógrafos e não acho que sou um cara assim pra dar autógrafo, não sou, assim, ator da Globo, cara de Holywwod, nem são tão bonito quanto o Leonardo de Caprio. Eu tô acostumado porque trato isso como uma brincadeira séria. Não que eu vá desprezar alguém, mas é uma brincadeira, acontece. Eu não considero o cara que vem falar comigo um reles mortal, o cara tá pagando meu salário! É minha obrigação tratar bem o cara.
Alessio – Vocês recebem muitas críticas pelos trabalhos de vocês, tanto na DB quanto em Tormenta? Quais são as mais comuns e como vocês respondem a elas?
Saladino – Aí varia basatante. A gente recebe sim muita crítica construtivas, destrutivas e totalmente negativas. Tem um pessoal que fala “Olha, a DB tá legal, mas vocês podiam fazer isso, isso e isso” e fala com propriedade. Na maioria das vezes a gente presta atenção, pode não parecer, mas a gente presta muita atenção nisso. A gente recebe muita carta, muito e-mail. A gente lê com calma, o pessoal não acredita, mas a gente lê as cartas. Eu participei de lista de discussão por iniciativa própria, porque não dá tempo de responder quase tudo, mas eu acho muito importante ouvir e saber diferenciar o pessoal que tá falando “Olha, a DB tá ruim nisso” ou então virar e falar “Vocês são ruins e… acabou!”. E se o cara virar e falar assim “Vocês são ruins então eu não compro a DB!”, então tá bom, eu não me deixo abalar por isso. Porque sempre vai ter gente que não vai gostar do que eu faço, não queo obrigar todo mundo a gostar do meu trabalho. Quando a crítica é razoável, eu paro pra pensar “Opa! Será que não era legal a gente fazer o contrário primeiro dar uma lida com mais calma”, eu sempre presto muita atenção, sempre tento melhorar cada vez mais.
que prosima resvita sera lanssada