Aniversário de uma amiga em um boteco na Augusta, ao lado do Outs. Como não era bem a minha turma e nem todo mundo que ia lá simpatizo, resolvi levar minha galera para assim ter com quem ter um papo decente ou ter um ombro confiável se eu cair de bêbado. Angario o Renato e o Gargamel. Passando por um dos mil puteiros que decoram o caminho, recebemos uma proposta tentadora: 10 reais por cabeça com direito a duas brejas mais um copo de whisky pra cada. Tudo bem que devia ser bebida vagabunda, mas mesmo assim não é todo dia que se bebe whisky. Juro que consideramos entrar na bodega, mas a aniversariante era muito amiga minha (além de que eu pagava um pau pra ela) de modo que mantivemos a idéia original.
O boteco é nosso tradicional ponto de encontro e local de aquecimento quando rola show do Matanza no Outs. Já aconteceram causos bem bizarros ali, mas hoje era só a nossa galera mais alguns bebuns habitués do local. Cumprimenta daqui, beijinho dali, fofocas de cá, risadas de lá. A mesa começa a ficar cheia de garrafas vazias e os cinzeiros cheios de bitucas. E eu olhando para as coxas da aniversariante, lamentando por todos os deuses ela estar namorando. Não que eu seja lá muito moralista, mas é que ela é tão fofa que não a imagino traindo seu homem. Eis então que começa um papo sobre uma mina que rodou meia banca na galera e sobre como o namorado dela era um puta de um otário. Um dos caras na mesa parece incomodado com o papo, se levanta e me chama de canto. Eu abomino esse cara. Porque que ele tem que querer fazer confissões bem comigo? Amaldiçoando a tudo e a todos eu me sento em outra mesa com ele. Com um ar de preocupado ele começa:
- Esse assunto é embaçado pra mim, cara…
- Qual é? Todo mundo sabe que cê catou ela. Aliás, todo mundo sabe que todo mundo catou ela!
- É, mas minha mina não sabe…
- E ninguém vai contar. Por que cê não relaxa?
O semblante preocupado dele aumenta e me pego querendo sair dali. A besta morfética começa:
- Cara, eu amo a minha mina, mas curto pacas trepar, saca? É mais forte que eu…
- Porra, não existe isso, cara! Ou você quer ou você não quer! Toma decisão e vai em frente!
- Não posso largar a mina, cara!
Em vez de levantar e ir embora, eu faço o que não devia. Faço a maldita pergunta:
- Por que?
- Porque ela tá grávida!
- Então deixa de ser cuzão e fica com ela de uma vez!
- Cara, eu amo muito essa mina e tô feliz que vamos ter um filho, mas eu quero trepar, saca?
Se tem uma coisa que eu odeio é gente que cria seus problemas e finge não saber sair deles. Não que eu não faça isso, mas pelo menos não fico aporrinhando os outros com essas palhaçadas. Corto o papo falando que vou ao banheiro. Fico lá tempo o suficiente para que o mala tenha voltado a falar com a galera e vou até o balcão pegar meu tradicional conhaque. Do meu lado tem uma mulata gostosíssima pedindo suco de laranja e dizendo que está gripada. Me intrometo e digo que para quem está gripado é melhor limão com mel que suco de laranja. Ela simpaticamente sorri, agradece a dica, mas diz que odeia suco de limão. Volto para a mesa e reparo que todo mundo sumiu. Só estão o Renato e o Gargamel.
- Cadê o resto? – pergunto.
- Tão lá fora, sei lá…
Nisso passa a morena com dois gringos e senta com eles no fundo da bar. Certeza que é puta. Descem mais algumas garrafas de cerveja, estamos falando algo de suma importância para o ocultismo brasileiro e eis que a morena senta na nossa mesa! Devo admitir que ela era realmente gostosa. Peitão, cinturinha, bundão, lábios carnudos. Fico desconfiado de tudo aquilo e olho para as mãos e para o gogó. Era mina mesmo. Ela tenta começar um papo com a gente em uma língua que parece inglês, mas é difícil de entender. A garota parece estar bêbada e a única palavra que entendemos é “victoria”. Tento fazer as coisas voltarem ao normal:
- Querida, falei com você a pouco tempo atrás e conversamos em português. Eu sei que você fala português. Vamos parar com isso?
Mas é em vão. Ela continua aquela embromação que lembrava inglês e a falar “victoria”. Após algum tempo conseguimos decifrar que o boteco em que estávamos chamava Victoria´s e que ela trabalhava ou morava alguns quarteirões acima. O Renato tenta deixar as coisas claras em inglês mesmo:
- Pay atention, please. Are you a whore? Are you a bicth? Do you wanna have sex with us for money? (Presta atenção, por favor. Você é uma prostituta? Você é uma puta? Quer transar conosco por dinheiro?)
A garota parece ter ficado desconcertada ao ver o cara falando em inglês e eu emendo:
- Because we are in pinadíba, honey. We have no money. Sex with us only for free! (Porque estamos na pindaíba, querida. Não temos grana. Sexo com a gente só de graça!)
Como a coisa tava ficando divertida, o Gargamel emenda:
- And we are bad people! We do evil things! (E nós somos pessoas ruins! Fazemos coisas más!)
Não sei porque, a moça resolveu sentar do lado do Gargamel e os dois começaram uma conversa de pé de ouvido no dialeto estranho dela. Como camaradas que somos, resolvemos deixar os dois à vontade. Eu e o Renato começamos um papo sobre leitura do futuro na espuma da cerveja e eis que o casal se levanta e nosso felizardo amigo nos pede dinheiro emprestado para pagar um motel barato e comprar camisinha. Feliz porque alguém ia faturar nessa noite, demos até dinheiro a mais. Mas então o filho da puta que tava chorando porque amava-a-mina-grávida-e-não-conseguia-ficar-sem-trepar aparece e solta:
- Quem é a amiga de vocês? Vamos sentar aí e trocar umas idéias!
Na hora a garota solta a mão do meu camarada e volta a se sentar. Se eu já não gostava desse cara, agora que ele se mostrou um fura-olho maldito eu gosto menos ainda. Para evitar violência e derramamento de sangue (o meu, porque certeza que o mala me espancava), prefiro ir para fora do bar e fumar um cigarro. Lá estou eu absorto em lembranças felizes naquele local quando sou bruscamente interrompido:
- Tem um cigarro?
Me viro e vejo uma ruivinha linda ligeiramente indie sorrindo para mim! Ponho a cabeça no lugar e lembro que ela só pediu um cigarro. Pego um, ela pede meu isqueiro e já estou me preparando para entrar no bar novamente quando ela pergunta:
- Já não te vi por aqui antes?
Feliz que o Destino resolveu abrir páginas felizes em seu livro para minha não-tão-humilde pessoa, iniciamos um descontraído papo sobre baladas e bandas. Chegam alguns amigos dela com cervejas e dois copos, sendo que um era para mim! Era um oásis de companheirismo nesse mundo cão e fico lá por um tempinho. Mas eis que esse momento alegre é interrompido pelo mala que amava-a-mina-grávida-e-não-conseguia-ficar-sem-trepar-e-ainda-atravessava-o-xaveco-alheio:
- Falaê cara! Não vai apresentar essa galera?
Apresento e logo ele tem o dom de tirar a mina de onde eu tava com a desculpa de mostrar seu carro pra ela. Chega. Cansei. Vou até a mesa e encontro meus camaradas sozinhos com duas garrafas de cervejas vazias.
- Cadê a puta? – pergunto.
- Sei lá. Pagou essas duas brejas pra gente e foi embora.
- A conta nossa tá paga?
- Tá.
- Vambora antes que eu faça merda.
De saco cheio porque um filha da puta que só pensa com o pau conseguiu estragar a noite de todo mundo fomos embora dali. Acabamos nossa balada no Cervejazul. O Renato dormia na mesa bêbado enquanto eu e o Gargamel ficamos cantando nossos blues improvisados com dois moleques rindo da nossa cara e nos dando cervejas em troca de mais estrofes.
Rá! Gostei…
Mas, vem cá, a Mô lê isso??
\o
Eu sei o que voce fez no verão passado.
Na época em que li isso pela primeira vez, não liguei o apelido que voce deu pro “Gargamel” era o cara dos Smurfs…
Vitorrria´s! Victorrrria´s!
Hahahahahhah Mas que história mais doida!!
:*
Nossa, eu lembro quando você me contou essa história pela primeira vez…
Ous… tem mais umas pra você escrever, não?