(matéria originalmente publicada em O Protagonista em 2004 e republicada aqui a título de comparação do que houve com os candidatos e gestões do último pleito para esse. Nas eleições atuais, o PSB não tem candidato próprio e faz parte da coligação “Uma Nova Atitude para São Paulo” da qual também fazem parte o PT, PCdoB, PDT, PRB e PTN. A candidata dessa coligação é Marta Suplicy e o vice é Aldo Rebelo.)
Todo o ano o jornal Folha de São Paulo promove uma sabatina com os principais candidatos a cargos públicos. Dessa vez o evento ocorreu com os principais candidatos à prefeitura da cidade de São Paulo: Luiza Erundina, Paulo Maluf, José Serra e Marta Suplicy. Me inscrevi para as quatro sabatinas e vou colocar minha visão do que ocorreu lá.
Se você não sabe o que é uma sabatina, não se desespere, eu também não sabia e fui pedir auxílio ao bom e velho Aurélio e lá está: “Sabatina: recapitulação de lições”.
No evento da Folha em si, o candidato tem 10 minutos para uma apresentação inicial, depois durante 1 hora ele é entrevistado pelo psicanalista Contardo Calligaris (colunista da Folha) e pelos jornalistas Clóvis Rossi e Gilberto Dimenstein (colunistas e membros do Conselho Editorial da Folha), Renata Lo Prete (editora do “Painel” da Folha) e Nilson Camargo (editor responsável pelo Agora) e por fim tem mais 1 hora de perguntas formuladas pela platéia.
Por sorteio ela foi a primeira candidata a ser sabatinada. O local da sabatina era o Teatro Folha, no Shopping Pátio Higienópolis. Nunca tinha ido lá e o bairro e o shopping ficam em uma das zonas nobres da cidade. O Teatro Folha não é muito grande mas é bonito e confortável. Ao chegar, você recebe um adesivo da Folha pra colocar na camisa e um adesivo circular amarelo, que era pra te identificar enquanto público. Os jornalista usavam vermelho e os convidados verde. Lógico que eles tinham bancos reservados.
É legal ver o rosto das pessoas que escrevem no jornal que se lê. Clóvis Rossi tem um humor refinado e é muito sarcástico. Ele que coordena a sabatina. Gilberto Dimenstein e Renata Lo Prete fazem um estilo mais sério, ela até mais que ele. Contardo Galligaris, como psicanalista, fez um tipo mais desencanado, com perguntas voltadas a relação candidato/público e Nilson Camargo era o repórter turrão, quase que peitando todos os candidatos. Uma boa mistura, se me permitem um comentário.
Também achei legal porque muitos jornalistas usam brinco, piercing e até tatuagens. A própria Renata Lo Prete, editora do Painel da Folha, tem uma bela tatuagem no tornozelo.
A candidata pela coligação Compromisso com São Paulo (PSB e PMDB). Vamos à suas falas na sabatina (o que estiver entre parênteses é análise minha):
1 – Para Erundina, os problemas de São Paulo não se limitam à capital, são problemas metropolitanos e que só serão resolvidos se forem pensados dessa maneira;
2 – O desenvolvimento de cidade deve ser planejado a curto, médio e longo prazo;
3 – O papel político de São Paulo é muito importante no cenário nacional;
4 – Os problemas da cidade são fruto da política nacional nos últimos 10 anos.
- Para resolver o desemprego e suas consequências é necessário um desenvolvimento sustentável. Isso poder ser feito através de Bancos Populares com empréstimos menores e menos burocratizados, gerando trabalho e renda. Também a política tributária será mudada como incentivo as empresas.
- As políticas regionais serão equalizadoras e descentralizadas, beneficiando a cidade como um todo.
- O funcionalismo público municipal será enxugado e melhorado.
Perguntas:
- Como explica sua aliança com Orestes Quércia, do PMDB, um político com quem teve relações conturbadas no passado?
R: A população tem percepção política social insuficiente, não percebe que alianças são feitas com bases em propostas de programa e governabilidade e não com pessoas.
- Mas não soa incoerente uma aliança com o PMDB?
R: Isso expõe a fragilidade dos partidos, que estão perdendo seus ideais.
(Apesar de muito do que ela falou está certo, é complicado você se aliar com um adversário político histórico. Mas como se diz por aí: “tudo pela governabilidade”. Esse mantra justifica quase tudo em política hoje.)
- A candidata se considera isolada?
R: Pareço isolada por causa de limitações partidárias. Parte dessa impressão se dá porque ela faz uma política educativa, visando emancipar a população.
- Com a esquerda dividida, é possível hoje uma grande aliança progressista?
R: Isso só acontecerá com partidos políticos esclarecidos política, ideológica e doutrinamente. E o proguessismo não se dá em divisão esquerda/direita, mas sim com propostas políticas.
- A candidata se considera contra Marta ou Serra?
R: Não está com nenhum dos dois. Ambos têm projetos políticos federais e vêem a prefeitura como trampolim para outros cargos.
- Apoiaria quem num eventual segundo turno?
R: Apoiará propostas que venham ao encontro das suas, e não candidatos.
(Os jornalistas insistiram muito em quem ela apoiaria, mas Erundina não citou nomes e disse que ainda está no páreo e pretende ganhar a eleição.)
- É possível o PT mudar?
R: Se quando tiver o mínimo de compromisso social.
- Tendo apoiado o PT na campanha presidencial, a candidata se sente enganada?
R: Não, porque a mudança do partido se deu depois da posse.
- Se fosse eleita, o que mudaria primeiro em São Paulo?
R: Acabaria com a taxas, que são inconstitucionais. Também vai centralizar o serviço de coleta de lixo, interrompendo a atual licitação, que afirmou ser corrupta.. Também questionou as mudanças feitas por Marta no transporte, uma vez que as empresas de ônibus, como a Gato Preto, são as mesmas.
- E quanto a Serra?
R: A Máfia dos Vampiros passou pela gestão Serra enquanto ministro da saúde, então ele também é responsável.
- Explique mais sobre os Bancos Populares e o Crédito Solidário.
R: A idéia é financiar cooperativas como padarias comunitárias. Usar a população com baixa escolaridade para a manutenção de parque e jardins, mas não terceirizar. Incentivar a micro e pequena empresa.
- O que a candidata tem a dizer sobre a acusação de ter apoiado a greve da CMTC em 89, enquanto era prefeita de São Paulo?
R: Apoiou para preservar a frota, que se saísse seria depredada, etc. Também faltou diferenciar o PT e a prefeitura da cidade. Hoje não sabe se faria. Fez questão de lembrar que sua candidatura NÃO foi apoiada pelo PT, que queria Plínio de Arruda Sampaio. Ela foi eleita pelo povo.
- A dívida é impagável?
R: Não, mas as metas devem ser mudadas.
Resumindo, tirando a explicação sobre sua aliança com o PMDB, a candidata se saiu muito bem e não perdeu a compostura apesar da pressão do jornalistas. Ficou irritada com a insistência deles sobre quem apoiaria no segundo turno, pois deu a impressão de que ela estava fadada a perder.
A pergunta que mandei sobre o que ela pretende para a área cultural foi feita e respondida. Mas foi aquela coisa padrão de “casas de cultura, shows públicos, etc”.
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