Candidatos na Folha 2004 – José Serra

(matéria originalmente publicada em O Protagonista em 2004 e republicada aqui a título de comparação do que houve com os candidatos e gestões do último pleito para esse. No pleito atual o PSDB faz parte da coligação São Paulo na Melhor Direção junto com o PTB, PSL, PSDC e o PHS. Seu candidato é Geraldo Alckmin.)

A primeira coisa que me chamou a atenção nesse dia foi que aboliram os lugares reservados para jornalistas e convidados, agora você podia sentar onde quisesse. Não sei se foi idéia do candidato ou da organização, Mas eu achei legal. A esta altura também as pessoas que estavam indo ao evento começaram a se enturmar e se conhecer, se cumprimentando, sentado junto, essas coisas.

Nesse dia estavam presentes pessoas, por assim dizer, ilustres, quem eu reconheci foram José Aníbal, presidente do PSDB e candidato à vereador e José Pinotti, do PFL. Deveria ter mais pessoas, mas de rosto só reconheci estes.

José Serra é candidato pelo PSDB da coligação Ética e Trabalho (que inclui o PFL e o PPS). Cabe aqui uma pequena explicação: apesar de oficialmente o PPS estar ligado ao PSDB, parte dos membros do partido apoiam Marta Suplily (PT) por fora.

Vamos a sabatina (comentários meus entre parênteses):

Serra iniciou dizendo que sua gestão está baseada em 5 “Ps”:

1o – Primeira hora: se eleito, começará a trabalhar no início da gestão, não deixando trabalhos/obras/projetos para o fim do mandato;
2o – Prioridade: seu governo terá prioridades (no caso será saúde) e irá levá-las a cabo. “Quando tudo é prioritário nada é prioritário” – palavras do próprio candidato;
3o – Planejamento: a atual gestão se caracteriza pela falta dele. Quando se faz trabalhos de última hora é porque faltou planejamento;
4o – Parcimônia com o dinheiro público: quando se tem prioridades, se utiliza bem o dinheiro, porque quem paga os impostos é o eleitor;
5o – Parcerias: a prefeitura não pode dar conta de todos os problemas da cidade, portanto deve-se buscar parcerias (com ONGs e empresas, por exemplo) para formar propostas e executá-las.

- Como explica os vampiros da Saúde que agiram também durante a sua gestão no ministério da saúde?
R: Foi comprovado que os vampiros não agiram durante sua gestão, já que ela teve redução de gastos e ganhos mundiais na área de remédios, por exemplo.

- Não sai estranha uma aliança com o PFL, tradicional adversário político?
R: As alianças se fazem necessárias para se ter governabilidade e são feitas com base em propostas, programas e idéias e não com pessoas ou partidos. O problema é quando alianças se baseiam em negociações de cargos. E Serra deixou claro que não fará loteamento de cargos.

( incrível como a palavra “governabilidade” justifica tudo. Desde de a aliança PT/PL para a corrida presidencial, passando pela também questionável aliança PSB/PMDB de Erundina e a atual aliança de Serra. Virou um mantra.)

- Questionaram sua rapidez em responder as perguntas, ele disse que “é fruto da sinceridade”.

- Buscaria o apoio de Maluf?
R: Só discute isso em um eventual 2o turno. Antes disso sua preocupação é garantir votos para chegar lá.

- Sua candidatura pode ser considerada um trampolim para outros cargos?
R: Disse que não e que vai cumprir o mandato na íntegra, os 4 anos.

(nesse momento Gilberto Dimenstein saca um documento onde Serra se compromete a cumprir o mandato na íntegra para ser levado á um cartório. Serra disse “que não há necessidade disso, mas vai assinar para não ficarem falando que não o fez”. E assina sob aplausos. Nessas horas que eu adoro minha profissão.)

(NOTA: José Serra não só largou o cargo para se candidatar a governador do estado de São Paulo como conseguiu se eleger.)

- A ênfase grande na saúde tem a ver com o fato de candidato ter sido ministro nessa área?
R: Teve experiência na área e esta é, segundo opinião de pessoas na rua, a maior preocupação na cidade.

- É necessária a renegociação da dívida de São Paulo?
R: É contra o termo renegociação. São Paulo já paga o teto da dívida, não dá pra pagar mais que isso. O que deve ser discutido é a forma de pagamento, não o valor.

- E essa discussão sobre capitalização dos apoios federal e estadual?
R: É mentirosa porque isso entra em orçamento. Seria subestimar o governo federal insinuar que haveria tentativa de Serra de minar o poder federal.

- Qual seria para o candidato a São Paulo ideal?
R: Uma cidade com mais oportunidades e oportunidades iguais para todos.

- A atual situação do país é fruto da era FHC?
R: Não porque o problema tem sua raiz nos anos 80. O que FHC fez foi preparar uma estabilidade para o próximo ciclo, que seria o de crescimento.

- Propostas para segurança pública
R: A prefeitura pode fazer políticas positivas, como educação e emprego. Outra proposta é a comunicação entre a Guarda Civil Metropolitana (que NÃO tem atribuições de polícia) e a Polícia Militar.

- É possível municipalizar a segurança?
R: A reestruturação para isso seria tamanha que só é possível se o Brasil começar de novo.

- Fecharia os bares a noite?
R: Em alguns lugares sim.

- E quanto ao planejamento familiar?
R: Poderia ser feito, mas com preservativos e não aborto.

- Distribuiria camisinhas nas escolas?
R: Sim.

- O candidato parece menos tímido nessas eleições que nas outras. A que atribui isso?
R: Sempre foi tímido e isso não mudou. O que mudou foi a conjuntura e isso afeta a visão que as pessoa têm dele.

(foi citado o fato de que ele não é visto comendo salgados em feiras e padarias. Serra afirmou que não come maionese (!) e que fica mais a vontade na rua que em lugares fechados.)

- Qual seria seu primeiro ato caso fosse eleito?
R: Revisão nas distribuição de medicamentos.

- E quanto a Taxa do Lixo?
R: Seria revista porque e ineficiente, visto que sai muito caro cobrar quem não paga.

(atualmente a taxa gira em torno de R$3,00. Cobrar quem não paga, acionando os órgãos responsáveis, sai mais que o dobro da taxa.)

- Vê corrupção na atual licitação do lixo na cidade?
R: Não afirmou que sim, mas é plausível e será feito todo o possível para cancelá-la.

Foi a sabatina mais tranquila até agora. Não que não tenham pegado no pé do candidato nem o tenham pressionado. Mas havia um “clima de cordialidade”, até pelo fato de Clóvis Rossi e Serra terem falado no começo da sabatina que eram amigos.

Mais uma vez minha pergunta foi feita e causou tanta polêmica que saiu no jornal!! Reproduzo abaixo o trecho que foi escrito por causa dela:

“Terrorismo Eleitoral

Serra recusou-se a admitir que foi pioneiro na prática do terrorismo eleitoral. Referindo-se à última campanha presidencial, disse que, pessoalmente, jamais fez terrorismo.

(ele não. Mas deixou a Regina Duarte fazer por ele.)

Não negou que seus assessores tenham levado ao ar, na propaganda eleitoral, a mensagem de que o governo Lula equipararia o Brasil à Argentina. ‘Mas o que a prefeita fez foi diferente’, comparou. Para Serra, Marta estaria jogando o jogo se dissesse que alguém faria um mau governo na prefeitura. Mas ela foi além do razoável, acha o tucano, ao dizer que sua eleição geraria crise institucional e que Brasília não se entenderia com uma candidatura do PSDB.”

Legal, né?

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