Se alguém acompanhou desenvolvimento e o desfecho da eleição municipal de São Paulo, deve ter ficado de pau duro com tudo o que aconteceu. Poucas vezes tanta coisa esteve em jogo e poucas vezes os resultados foram tão inesperados. Como eu já disse mais de uma vez por aqui, a eleição paulista seria um aquecimento do combate que será a eleição nacional e o que houve deixou muita gente de cabelo em pé.
Quando ainda estavam escolhendo quem seria candidato por qual partido e cada partido vendo quem iria apoiar ou não, Marta Suplicy (Partido dos Trabalhadores – PT) despontava como líder em todas as pesquisas. Logo atrás dela vinha seu rival natural, Geraldo Alckmin (Partido Social Democrata Brasileiro – PSDB), seguido nem um pouco de perto por Gilberto Kassab (Democratas – DEM). Depois apareciam aquele monte de nomes que sempre estão disputando algum cargo: Paulo Maluf, Ciro Moura, Levi Fidélix e a grata surpresa da tentativa da vereadora Soninha de concorrer à prefeitura.
Então as candidaturas foram homologadas e veio a primeira surpresa: Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab não seriam aliados e sim concorrentes. Nem foi tanta surpresa assim, mas quando se oficializou a coisa toda, houve comemorações e choros para todo o lado. Parte do PSDB queria manter a aliança com o DEM e lançar somente Kassab. Mas Alckmin bateu o pé, Aécio Neves o ajudou e o PSDB lançou candidato próprio. Então oficialmente o PSDB apoiava Alckmin, mas todo mundo sabia que a ala paulistana do partido de fato apoiava Kassab. E mais uma vez o PT e Marta ficaram contentes. Oposição dividida significava votos divididos e o primeiro turno estaria mais do que assegurado. Então seria questão de organizar bem as alianças para o segundo turno e comemorar a vitória.
Essa era a situação no começo do jogo. Parto agora para uma análise individual de cada jogador para então voltarmos para a análise do cenário pós-eleição.
- Gilberto Kassab (DEM): disse com firmeza no começo da campanha que não era conhecido, mas que assim que começasse a campanha e mostrasse o que já fez durante sua gestão, seu número de votantes cresceria. E assim foi. De terceiro lugar nas pesquisas acabou se reelegendo prefeito de São Paulo, surpreendendo todo mundo. Sua campanha foi muito bem conduzida. Investiu forte na propaganda paga em TV e rádio (eu mesmo ainda me lembro das “musiquinhas” dele, mas esqueci a dos outros). Mostrou os pontos fortes de sua gestão de dois anos. Teve todo um clima alegre e de “bola pra frente”. Além de evitar atacar outros candidatos, ainda dizia que continuaria com projetos das gestões anteriores que considerava bons. Nem uma “acusação” de homossexualidade abalou sua campanha. Era uma cara nova na política paulistana (pelo menos para o eleitorado) e tinha uma boa avaliação de sua gestão. Suas “manchas” eram as ligações passadas na política, já que foi da equipe do ex-prefeito Celso Pitta. Mas parece que a população se ateve a questões mais “práticas” e ele tem mais 4 anos frente à prefeitura paulistana;
- Marta Suplicy (PT): começou muito bem e conseguiu literalmente cagar com tudo na reta final das eleições. O partido dela era ao mesmo tempo uma vantagem e uma desvantagem. Vantagem porque Petistas agem como torcedores tão fanáticos como corintianos. Eles votam no partido e em quem ele apoiar, não importa quem seja. Mas desvantagem porque, assim como o Corinthians, muito gente não gosta do PT e vota em qualquer um para não votar em seus candidatos. Em geral o eleitorado não se liga muito em partidos, mas no caso do PT isso acontece para o melhor e para o pior. Nosso atual presidente é do PT e goza de índices altos de popularidade, mais um ponto favorável (assim se acreditava pelo menos). Mas Marta Suplicy tinha um índice de rejeição muito alto. Sua personalidade arrogante e agressiva sempre atrapalhou sua imagem. Seu divórcio com o popular senador Eduardo Suplicy e a insistência em manter o nome de casada nunca foram vistos com bons olhos pela população em geral. E o fim de sua gestão na prefeitura foi marcado por obras viárias de utilidade duvidosas e caras. Mas mesmo assim estava na frente das pesquisas. Sua campanha foi esteticamente impecável. Tentaram passar que seu temperamento forte vinha do fato dela ser uma mulher de atitude. Evitaram o uso excessivo da cor vermelha, optando mais pelo branco e até o azul (cor tradicionalmente ligada ao PSDB) em suas propagandas. Mostrou os pontos fortes de sua gestão anterior (em particular a rede CEU). Mas quando Kassab disparou nas pesquisas a campanha começou a desandar. Primeiro porque começou a atacar seus adversários diretos, Alckmin e Kassab. Isso gerou mais problemas do que soluções, como falarei na análise geral ao final desse artigo. Segundo porque tentou propostas populistas como a Internet Para Todos e a poder novamente carregar o Bilhete Único nas catracas do ônibus. Por mais que eu seja viciado em Internet (quem me conhece sabe muito bem disso), tenho plena noção que conexão a cabo não é uma prioridade em minha vida, assim como não é na vida de ninguém. Quando o transporte público estiver 100%, a segurança pública der conta do recado, a educação municipal atender minimamente a demanda, aí sim acredito que o poder público pode se preocupar em me dar acesso a Rede de graça. Foi uma ênfase muito grande a algo que é perfumaria e ninguém se convenceu de que isso seria possível, por mais que ela explicasse. Já o impedimento de carregar o Bilhete Único nas catracas dos ônibus foi adotado por medidas de segurança e para evitar o número crescente de fraudes e também foi algo que não atrapalhou em nada a vida dos usuários. Esses eram os carros-chefe da campanha de Marta e posso afirmar que ela centrou fogo nos alvos errados. As pesquisas boca-de-urna no primeiro turno indicavam Marta na frente, então veio a apuração e Kassab acabou ficando na frente com mais de 5% de vantagem. Os motivos disso estão claramente apontados acima. E os marketeiros de Marta cometeram erros atrás de erros no segundo turno. Intensificaram na propaganda as medidas popularescas que já não convenceram ninguém no primeiro turno. O tom das propagandas tentou apelar para um lado mais emocional do eleitorado e o slogan era “A Esperança vai vencer”, além do reforço na estética para tudo parecer mais lindo e maravilhoso. O presidente Lula participou de maneira intensa, aparecendo em rádio, TV e até comícios. E vieram os ataques a Kassab. Primeiro tentaram colar no rival o fato dele ter feito parte da equipe de Celso Pitta e que havia liderado a campanha “Reage Pitta”. Essa campanha visava recuperar a imagem do ex-prefeito quando a corrupção no caso dos precatórios veio à tona. Não deu certo e foi aí que a campanha dela deu um tiro no pé. Veicularam uma propaganda “não-assinada” onde informavam que Kassab não era casado e nem tinha filhos.
(Pausa. Propaganda não-assinada é quando vemos alguma peça publicitária política onde o partido que a fez “omite” seu nome ao final dela ou mostra seu nome bem pequeno e bem rápido no canto inferior da tela. Normalmente elas não são assinadas porque “pegam pesado” em algum aspecto de rivais e podem queimar o filme de quem está acusando. Grande parte delas são de fundo preto com letras brancas para criar mais impacto. Quando ver alguma dessas peças indo ao ar, pode ter certeza de que algum candidato está apelando.)
A desculpa oficial dos marketeiros para falar sobre Kassab ser solteiro era de que o eleitorado deveria saber mais sobre o passado de seus candidatos e se um homem sem família constituída teria a “sensibilidade” de governar São Paulo. Mas na verdade quiseram insinuar que Kassab era homossexual. O resultado foi desastroso. Primeiro porque Marta sempre foi uma candidata fortemente associada ao eleitorado gay de São Paulo e este se sentiu traído. Quer dizer que ela apoiava o movimento gay enquanto eleitor mas um prefeito supostamente homossexual era um problema? Sem contar o fato de que TODO MUNDO achou aquilo baixo demais e a reação geral foi: ela apelou. E como dizem por aí, quem apela é porque perdeu a razão. O Tribunal Superior Eleitoral mandou retirar a peça do ar e concedeu Direito de Resposta a Kassab, que soube utilizar muito bem o recurso para piorar a situação de Marta. Ela ainda tentou dizer que a propaganda foi toda responsabilidade dos marketeiros e ela que mesma só viu quando foi ao ar, mas qualquer um com um mínimo de conhecimento político sabe que isso é mentira. E se não fosse ia ser tão ruim quanto. A percepção que faltou aos marketeiros é que o alvo daquela peça, os conservadores retrucados, não votam na Marta nem fodendo. Como eu expliquei lá em cima, eles votam contra o PT e contra a Marta. Logo ela mais perdeu votos com isso do que ganhou. Sem contar o belo estrago na sua imagem pública. E o resultado de tudo isso foi que ela perdeu a eleição e não é mais “candidata natural” ao governo do estado em 2010.
No próximo texto a análise dos demais candidatos!
O texto está realmente muito bom, como sempre. Eu, pessoalmente, gostaria que você tivesse escrito mais coisas durante as eleições, pois curti bastante tudo o que li. Sobre as propostas populistas da Marta, discordo a respeito da Internet. Por mais que realmente seja secundária a questão da banda larga wireless ao ser pesada junto a outras questões como saúde e educação, não foi esta a recepção que a população mais carente teve da proposta não. Não tenho como lhe provar agora (não encontrei o vídeo que mostra isso), mas em comícios pela periferia, a população mais clamava pela tal da internet grátis do que por outra coisa. A marca da Marta tem sido a de elevar a qualidade de vida da população carente, mesmo que com soluções que, por mais que boa, não realmente resolvam os problemas principais, e o seu eleitorado gosta disso. Para mim, os CEU são o maior exemplo disso. Ao invés de criar diversas escolas pequenas e boas, ela criou um mega centro que nem sempre suporta as necessidades do bairro (mas aí é só abrir de fim de semana, não?).
Sobre os ataques ao Kassab, realmente foi um tiro no pé. Cheguei a encontrar um santinho que apontava duas figuras políticas como possíveis amantes do prefeito e que encerrava com a seguinte fórmula matemática: 24+1=25. Realmente apelativo.
(Pausa. Jingle é uma mensagem publicitária musicada e elaborada com um refrão simples e de curta duração, a fim de ser lembrado com facilidade. Jingles podem ser criados para interesses comeciais, institucionais ou políticos.) Musiquinha é a puta que te pariu!
Massa seu comentário, Mario.
E eu sei o q é um jingle, tanto q escrevi “musiquinha” entre aspas. Achei q ficaria mais engraçado, maus se ofendi a classe publicitária.
Eu realmente queria ter escrito mais durante as eleições, mas não tive estrutura (seja técnica ou até mesmo física) para tudo isso. O volume de material que tive q ler/assistir/ouvir era imenso e acabou q não dei conta. Por isso mesmo resolvi partir para algo mais analítico.