Eleições 2008 – Uma Análise Final do Cenário na Capital Paulista – Parte II

(este texto é a continuação da análise final das eleições paulistanas)

- Geraldo Alckmin (PSDB): foi o maior perdedor dessas eleições. Seu partido estava disposto a manter a aliança com o DEM e ficar como vice na chapa de Kassab. Mas Alckmin andava meio fora de cena desde que perdeu as eleições presidenciais em 2006 e queria concorrer para mostrar que ainda tinha peso político. Uma ala do partido capitaneada por José Serra foi contra essa idéia e queria que Alckmin se poupasse para tentar o governo do estado em 2006. Mas Alckmin bateu o pé e com a ajuda da Aécio Neves saiu candidato a prefeitura. Tanto a negação de Serra quando o apoio de Aécio foram tentativas de demonstração de poder político para 2010, já que ambos são candidatos naturais do PSDB à presidência. Com Alckmin candidato, Aécio havia ganhado o primeiro round, mas havia ainda as eleições em si. Politicamente falando, a situação de Alckmin era bem complicada. Como boa parte do partido na verdade queria Kassab como candidato, o apoio de seus colegas de partido na capital foi pífio. Para piorar, não ficou claro em nenhum momento se Alckmin era situação ou oposição. O apoio de Serra oficialmente era para Alckmin, mas Kassab usou e abusou de sua ligação com o governo estadual durante toda a campanha. Alckmin contava com o apoio de quem? Ele era contra o que? Essa indefinição começou a se refletir no número de votos, que diminuía a cada pesquisa. Acuado, passou a atacar tanto Kassab quanto Marta e aí perdeu a sua maior virtude, que era a sua imagem de político calmo e pacato. E seus votos continuaram caindo. Ficou com uma amarga terceira posição ao final do primeiro turno e viu Kassab despontar para o primeiro lugar. Se Alckmin e Aécio comemoraram no início do pleito, agora constataram que sua análise do cenário foi equivocada e o que foi uma tentativa de demonstrar força política acabou sendo uma baita queimação de filme para todos os envolvidos. A situação para Alckmin ficou tão feia que até correram boatos de que ele iria deixar o PSDB. O fato foi que ele realmente complicou os planos do partido para 2010. O cenário idealizado pela ala paulistana seria Serra candidato à presidência, Alckmin candidato ao governo do estado e Kassab na prefeitura. A lavada que Alckmin levou deixa agora sua situação indefinida. A falta de outros nomes fortes ainda conta a seu favor, mas agora ele apita muito menos do que apitava antes;

- Paulo Maluf (PP): por que ele ainda insiste em concorrer a cargos majoritários? O número decrescente de votos a cada pleito ainda não o convenceu de que sua força política acabou? Maluf ainda pode conseguir alguma coisa como deputado ou vereador, mas é só. A maior parte de seus eleitores é formada por pessoas mais velhas e, por mais cruel que isso possa parecer, essas pessoas estão morrendo. O eleitorado jovem cresceu ouvindo que ele é ladrão e que foi ligado à ditadura, portanto dificilmente vota nele. Maluf até tentou durante a campanha se colar no público jovem, com jingles lotados de gírias e jovens literalmente gritando que votar no Maluf era um ato de atitude porque ele era “o cara”. Mas não colou. Sem contar que ele passou a maior parte de campanha reclamando que não tinha tempo, mas que se fosse para o segundo turno, teria igualdade de tempo e poderia mostrar melhor suas propostas. Ou seja, falou, falou e não falou nada. Mas deixando minha ojeriza a ele de lado, sou obrigado a admitir que Maluf era o único candidato que tinha culhões para resolver o problema do trânsito em São Paulo. Isso porque ele iria priorizar esse aspecto e que se danasse o resto. A “Free-Way” sobre o Tietê era um bom exemplo disso. Ia jogar fora anos de projetos de revitalização do rio e da área, mas ia resolver o trânsito. Não vou nem entrar no mérito do superfaturamento de obras, mesmo porque para os votantes dele isso é um preço baixo a ser pago;

- Soninha Francine (PPS): como eu já disse mais de uma vez, foi uma grata surpresa a sua candidatura. Primeiro por ser um rosto realmente jovem na política e segundo por ter feito uma campanha diferente tanto nas propostas quanto no formato em si. Tanto nos debates quanto nas propagandas, você via um nervosismo que era misto de inocência e empolgação, quase como se ela mesmo não acreditasse que estava lá. Suas propostas iam em um rumo diferente das demais: investimento pesado em transporte alternativo, criação de postos de trabalho e outras facilidades na periferia para diminuir o deslocamento da população. Suas propagandas tinham um cenário com cartazes feitos a mão. Muitas pessoas simpatizaram com sua candidatura, mas não votaram por não acreditar que ela tivesse chance. E em uma primeira disputa, ficou em quinto lugar, quase empatando com Maluf, o que não é pouca coisa. E Soninha já disse que vai disputar de novo. Resta a dúvida se ela saberá administrar seu idealismo com praticidade quando começar a jogar pra valer, uma vez que sua força política só tende a crescer.

- Ivan Valente (PSOL): o PSOL é uma dissidência do PT e acabou se aliando com outra dissidência, o PSTU. O fato de dois partidos caracterizados por serem radicais e fechados terem se aliado já é um avanço por si só. Mas Ivan Valente também fugia um pouco do típico candidato desses partidos. Se assumia de esquerda sim, mas durante a campanha fugiu dos chavões do gênero (FMI, capital, etc) e se ateve a mostrar que tinha uma proposta diferente para a cidade. Se contar a sua postura calma, em contraste com os histéricos que víamos gritando em eleições anteriores. Ainda acho que o PSOL e o PSTU vão virar um partido só, mas vamos deixar o barco correr;

Sim, eu sei que tivemos outros candidatos, mas tirando algumas boas risadas, nenhum deles fez algo digno de nota.

E assim podemos chegar ao cenário final na capital paulista: o PSDB e o PT, dois partidos majoritários e nascidos em São Paulo, perderam o cargo para o DEM (antigo PFL), cujo o curral eleitoral se centrava majoritariamente na região nordeste. E isso foi um banho de água fria em ambos os partidos, que agora se encontram enfraquecidos para a negociação de alianças em 2010. O PSDB ainda se encontra mais confortável, pois o DEM é um aliado tradicional. Já Lula tem que ficar esperto, acreditava-se que ele poderia “transferir” sua popularidade para quem ele apoiasse e a derrota de Marta mostrou que não é bem assim. O presidente contava em fazer isso com Dilma Roussef em 2010 e agora percebeu na prática que pode ser uma manobra arriscada. O grande mérito dessa eleição foi mostrar que nada está definido para a corrida presidencial e, pelo menos entre os grandes partidos, tudo pode acontecer.

4 Respostas para “Eleições 2008 – Uma Análise Final do Cenário na Capital Paulista – Parte II”


  1. 1 O Coadjuvante

    Não sei se vou conseguir fazer um comentario tão cabeça quanto o do Mário.

    Ainda acho que dizer que a Freeway iria resolver o problema do trânsito em são paulo seria um pouco precipitado. Somente um terço das FAMÌLIAS têm acesso a automóveis. No entanto, a produção continua aumentando cada vez mais. Você acha que em quatro anos a situação não estaria novamente um CAOS?

    a ÚNICA solução que a Europa achou para suas metrópoles foi, ao invés de ladear um rio com 26 pistas de trafego de alta velocidade para aumentar os espaços para automóveis foi TIRAR a maioria dos carros das ruas e devolvê-las às pessoas, além de investir pesado em transporte público. Além disso, eles ta, bem passaram a adotar a Teoria do Não Transporte, na qual a Soninha estava se baseando na questão do transporte para suas propostas.

    De resto, concordo com tudo o que você disse, exceto sobre ser surpresa o Kassab ter ganho. Estou repetindo isso há algum tempo embora ninguém acreditasse. Sobre a campanha do Kassab, você chegou a perceber que não havia um única propaganda em que ele estivesse falando parado? Ele sempre falava apressado, andando por corredores como dse estivesse com pressa e aproveitando o tempo de delocamento para falar com o eleitorado…

    Outra coincidência foi o número da Soninha. Todos saúdam Éris!

    – Pai, eu preciso fazer um trabalho para a escola! Posso te fazer uma pergunta?
    – Claro, meu filho, qual é a pergunta?
    – O que é política, pai?

    – Bem, política envolve: Povo; Governo; Poder econômico; Classe trabalhadora; Futuro do país.

    – Não entendi. Dá para explicar?

    – Bem, vou usar a nossa casa como exemplo: Sou eu quem traz dinheiro para casa, então eu sou o poder econômico. Sua mãe administra,
    gasta o dinheiro, então ela é o governo. Como nós cuidamos das suas necessidades, você é o povo. Seu irmãozinho é o futuro do país e a Zefinha, babá dele, é a classe trabalhadora. – Entendeu, filho?
    – Mais ou menos, pai. Vou pensar.
    Naquela noite, acordado pelo choro do irmãozinho, o menino, foi ver o que havia de errado. Descobriu que o irmãozinho tinha sujado a fralda e estava todo emporcalhado. Foi ao quarto dos pais e viu que sua mãe estava num sono muito profundo. Foi ao quarto da babá e viu, através da fechadura, o pai na
    cama com ela TRANSANDO INTENSAMENTE …….. Como os dois nem percebiam as batidas que o menino dava na porta, ele voltou para o quarto e dormiu.

    Na manhã seguinte, na hora do café, ele falou para o pai:
    – Pai, agora acho que entendi o que é política………………………..
    – Ótimo filho! Então me explica com suas palavras.
    – Bom, pai, acho que é assim: Enquanto o poder econômico fode a classe trabalhadora, o governo dorme profundamente. O povo é totalmente ignorado e o futuro do país fica na merda!!!

  2. 2 alessio

    Caro Coadjuvante,

    De repente minha análise sobre a solução do trânsito em São Paulo foi meio rasteira, mas foi mais porque expus as idéias sobre uma ótica “malufistas”, tipo “eu vou fazer e foda-se”. Realmente a solução ideial seria a colocada por vc em seu comentário, mas não acho ainda q algum político vai ter peito pra isso.

    As propostas da Soninha iam mais ao encontro dessa visão de “não-transporte”, mas sei lá se o eleitorado médio brasileiro consegue acompanhar essa linha de raciocínio. Envolve além de remodelar todo um sistema de transporte viciado em carros, envolve também uma outra ideologia de transporte e aí o bicho pega.

    Gostaria q vc explicasse melhor com base em q vc achava desde o começo q o Kassab ia ganhar. Baseei minha análise em pesquisas eleitorais e matérias sobre trajetória tanto dos candidatos quanto dos partidos. E PARTINDO DESSE PRINCÍPIO foi uma surpresa sim.

    Havia notado também a “feliz coincidência” do número da Soninha, mas como esse site ainda não se encaminhou de maneira mais explícita para textos sobre Magia do Caos e Discordianismo, não achei pertinente apontar isso.

    E muito bom o comentário e a piada!!!

    :::

  3. 3 O Coadjuvante

    Bom, camarada… Na verdade, a Campanha Eleitoral do Kassab começou há mais de dois anos . Basta pensar como foi a gestão dele: Ele se preocupou em marcar o nome dele. A primeira foi a “Lei Cidade Limpa”. Depois coisinhas pequenas, como a proibição de usar recipientes não descartáveis para molhos em restaurantes, lanchonetes e afins (nada de bisnaga de ketchup, nem pote de vinagrete… só porções individuais). Proibiu as barracas de pastel de feira de colocar mesas em plena rua; Para suas novas obras, se concentrou onde a Marta nunca conseguiu alcançar com os CEUs, criando não novos Megacentros, como o Mário disse, mas sim AMAs e escolas (Acredito inclusive que este foi um dos maiores motivos para ele conseguir tanto apoio “inesperado” da periferia). Reformou grande parte das Unidades Básicas de Saúde, melhorando o atendimento na periferia onde a Marta já tinha feito obras. Ganhou mais apoio.

    Em outras palavras, o povo, devido às coisinhas pequenas e polêmicas, ouviu mais o nome dele nos últimos dois anos do que o nome do Alckimin em sua gestão. Isso em apenas dois anos. Aposto o que você quiser que muitas pessoas votaram nele, mesmo que não apoiassem seus projetos, apenas porque ficou uma grande impressão de que “esse cara trabalha”. E isso foi muito bem aproveitado durante a campanha (declarada).

    Quanto às pesquisas eleitorais, você sabe como essas coisas funcionam.

    Ainda assim, não vou dizer que esteja contente. Em minha vida pessoal, o Kassab ter ganho me trará benefícios. Ainda assim, anulei.

    Nosso sonhos não cabem em suas urnas.

  1. 1 Eleições 2010 – Não, o jogo não começa ano que vem em O Protagonista 2.0
    Pingback em 17 nov 2009 às 23:05

Deixe um comentário