20 de Novembro: Dia da Hipocrisia Branca

“Negro rico, no Brasil, é branco.
Branco pobre, no Brasil, é negro.”
-
Elza Soares, “A Carne”

(AVISO: se por um infeliz acaso você é uma pessoa que se julga “politicamente correta”, passe longe desse texto.)

Tenho sérios problemas com feriados/ datas comemorativas dedicados às minorias. A impressão que me passam é que nós brancos-machos-capitalistas-heterossexuais-cristãos somos tão legais que até damos um dia pra vocês, tá? E parece que isso resolve tudo e todo mundo fica feliz.

Hoje por exemplo é o “Dia da Consciência Negra”. O primeiro fato estranho é que esse feriado só rola aqui na capital paulista. O resto do estado ou do país não tem essa mesma consciência? Por que esse feriado foi aprovado aqui em São Paulo e em outros lugares não? Temos um ministério só para esse assunto e mesmo assim nada?

Aí fui almoçar com a Aline no centro e nosso benevolente governo estadual promoveu um show gratuito para celebrar esse dia. Fui dar uma conferida na programação e só vi bandas / grupos de rap, hip-hop, samba, reggae e pagode. E se eu sou negro e curto rock, eletrônico ou música clássica?

O que dizer do público? Tirando os moradores de rua (esses em sua maioria negros, infelizmente), o que eu mais vi foram brancos com “roupas-afro” de grife bebendo cerveja e dançando e universitários maconheiros metidos a regueiros. Honrosa exceção a hora em que rolou rap e hip-hop e o público cativo compareceu, mas por uma estranha coincidência, a maioria dos branquelos sumiu. Não foi a toa que me peguei rindo com os trombadinhas fazendo a festa.

Até o staff do show era composto em sua maior parte por pessoas cujo fenótipo não era nem classificável como mulato. Mas as bandas que tocavam eram todas formadas por negros. Só eu vejo algo errado aí?

Então chego em casa e o Rádio Band está promovendo um debate sobre preconceito e racismo com… Chico César(?). Colocar o Chico César para debater sobre racismo é que nem me chamar para debater sobre miopia só porque uso óculos. E me pego ouvindo as mesmas coisas que ouvi quando participei da “Semana da Consciência Negra” na Unesp de Bauru. O problema foi que ouvi isso há 7 anos atrás.

Há quantos anos elite branca dá um feriado para os negros e promove uma série de eventos e debates? E quais os avanços concretos de lá pra cá? O grande equívoco é justamente esse: brancos querendo pensar como negros. Não deveria existir essa coisa de “pensar como eles pensariam”. O resultado acaba sendo esse “Dia da Caricatura Negra”. Onde se finge debater um assunto quando na verdade se reafirma uma série de estereótipos. E estereótipos são a principal fonte do preconceito.

O pior é a imagem de tolerância que essa simples data trás. O pior é quem tem gente que se preocupa com a causa nesse dia, mas a esquece no resto do ano. Vai aos shows, participa de debates e o caralho a quatro, mas de efetivo não faz nada.

Até quando vamos tapar os olhos para o fato do problema aqui no Brasil ser econômico e não étnico? Dando melhores condições de vida (educação, saúde e trabalho, pra ficar no mínimo) para população em geral irá produzir um efeito muito mais benéfico do que cotas, feriados e debates. Olhe para o seu ambiente de trabalho ou para a sala de aula da sua faculdade e conte quantos negros estão lá. Aí passe pelo setor de manutenção e faxina e vejam quantos negros estão lá. Entendem o que eu quero dizer?

Mas não, é muito mais bonito fazer toda essa festa e depois voltar para casa achando que fizemos nossa parte pela “tolerância racial” no país. E o que me deixa realmente preocupado é o fato dos próprios negros apoiarem esse tipo de iniciativa. É que nem os metaleiros que pagam pra ver um show do Massacration. Estão tirando sarro de cara de todo mundo, pagamos por isso e ainda achamos o maior barato! E assim caminha a humanidade…

(Agora só falta algum idiota ficar ofendido com meu texto e me chamar de elitista, preconceituoso e racista. Pelo menos abram um processo contra mim e me deixem famoso.)

12 Respostas para “20 de Novembro: Dia da Hipocrisia Branca”


  1. 1 Guilhermé

    Esse ano a data foi comemorada em 364 municípios de 12 estados diferentes, até ano passado eram 267 municípios. Rio de Janeiro, Mato Grosso e Alagoas são os estados que instituíram o feriado estadual, o último foi o piorneiro, onde se situa o Quilombo dos Palmares.
    Existe um projeto de lei de 2004 tramitando no Congresso pra instituir a data como feriado nacional.
    Concordo com as distorções e a hipocrisia, mas antes um feriado de Zumbi que a penca de feriados religiosos espalhados pelo nosso calendário.
    Aqui no Rio tem uma charge do Angeli que traduz a essência do feriado:
    http://bp2.blogger.com/_636eoZXajmo/R07YEPuiooI/AAAAAAAAAa4/T-cnktoaExA/s1600-h/image002.jpg
    Abraço, velho.

  2. 2 alessio

    Guilhermé,

    Valeu pelas informações adicionais! Realmente feriados “leigos” são melhores que os feriados religiosos, mas não veremos um Estado laico tão cedo por aqui…

    Abraços

    :::

  3. 3 jan

    Só que a economia é feita pela elite de “brancos-machos-capitalistas-heterossexuais-cristãos” & preconceituosos num geral. E isso faz com que a economia apenas seja um dos meios pelo qual o preconceito (e o racismo) se mostram.
    Ou não.

    Beijo.

  4. 4 Mário Henrique

    Ótima, Jan. Então mate todos os brancos-machos-capitalistas-heterossexuais-cristãos e nós nos livramos desse mal (quer dizer, você, eu não – porque vou estar morto). Não seja ingênua, a economia é uma forma de poder e domínio, sim. Mas ela não tem preconceito de cor, gênero ou opção sexual. Quem tem grana manda e é isso que conta no capitalismo. É como diz o Banqueiro Anarquista de Fernando Pessoa:

    “A tirania é das ficções sociais e não dos homens que as encarnam;
    esses são, por assim dizer, os meios de que as ficções se servem para tiranizar, como
    a faca é o meio que se pode servir o assassino. E V. decerto não julga que abolindo as
    facas abole os assassinos… Olhe… Destrua V. todos os capitalistas do mundo, mas
    sem destruir o capital… No dia seguinte o capital, já nas mãos de outros, continuará,
    por meio desses, a sua tirania. Destrua, não os capitalistas, mas o capital; quantos
    capitalistas ficam?… Vê?…”

    Acredito sim que exista preconceito racial, mas isso é uma questão social, não econômica. Concordo com o Alessio que o verdadeiro problema (aquele que deva ser debatido e trabalhado) é a questão da pobreza. É como aparece escrito em letras garrafais no clipe da Elza Soares “A Carne”: “Rico negro, no Brasil, é branco. Branco pobre, no Brasil, é negro”.

    Agora Alessio, faz as alterações no texto antes que eu use todas as idéias que a gente discutiu.

  5. 5 alessio

    Mário,

    Usa ué, as idéias são suas mesmo!!!

    E Jan,

    São justamente os “brancos-machos-capitalistas-heterossexuais-cristãos & preconceituosos num geral” q levam essa discussão aqui no Brasil para o lado racial. Porque assim a gente mantém a discussão no campo das idéias e não parte para a resolução o problema de fato, que é econômico sim. Se todo o esforço dispendido nesse debates contra o racismo fosse empreendido no combate contra a pobreza, a situação seria bem diferente.

  6. 6 Guilhermé

    A crítica quanto ao isolamento entre a questão racial, principalmente negra, e a questão social, no caso a exclusão pela pobreza, é valida e antiga (”A Integração do Negro na Sociedade de Classes” e “O Negro no Mundo dos Brancos” – Florestam Fernandes). Mas supor que a primeira se resolve com o combate a segunda é um erro grave e minimiza a evolução e enraizamento históricos do preconceito racial na sociedade brasileira, que é diferente do estadunidense, mas existe e é gravíssimo. As questões são conexas mas a exclusão social do negro está profundamente ligada a cor da pele, sim. Se assim não o fosse, negros e mulheres (aí se fodem mais as mulheres negras), pra não falar em índios, não teriam tratamento desigual ao homem “branco” no mercado de trabalho (cargos, salários, etc.).
    A esteriotipagem e generalização da Jan é viciosa e mantém a discussão em questões personalizadas e não conceituais, e que muitas vezes impede o movimento negro de alcançar grande parte da sociedade.

  7. 7 alessio

    Guilherme,

    Observação mais do que pertinente.

    Só não repito aqui minhas conclusões para evitar q a discussão se torne cíclica.

  8. 8 @amanda_arm

    Mandou MUITO bem meu querido.
    Colocou em palavras o que eu sempre disse e pensei sobre esse dia tão hipócrita que inventaram.

    ^^

  9. 9 Jefferson Fagundes

    A EXCEPCIONALIDADE DESTE DIA
    —————————-

    Primeiro gostaria de deixar claro que tenho parentes negros e muitos amigos negros.
    Porém, nada justifica esse “critério” de preconceito para com eles. Até onde eu sei, esse preconceito não existe. Muito desse preconceito vem de muitos negros que querem ser favorecidos por erros do passado… Quem aqui nunca errou? Vamos longe? Então vamos… porque cota universidade, porque cota nas empresas, porque favorecimento nos atendimentos, pra que esse dia???? Não somos iguais? Lutemos iguais… Pra que favorecimento no vestibular??? Eu estudei em escola pública, tenho amigo que estudou comigo desde aquela época e está em situação profissional melhor que a minha… somos iguais, fomos iguais. Agora vcs irão me dizer, “esta é uma rara excessão”. Eu lhes respondo: “Não, não é. É sim um grupo de menos favorecidos querendo seu lugar ao sol e facilidades em lugares e posição na sociedade de hoje…”. Escravidão se foi, hj somos iguais e temos leis… sou totalmente contra a excepcionalidade deste dia…

    Um abraço ao meu amigo Antonio Cesar, Juliana, José Eduardo, João de Deus, Maristela, Cesar… meus amigos negros.

  10. 10 Rafael Levi

    A frase que fala que a solução está na parte economia, mas depois discorda da cota entra em contradição.
    Essa chance de crescimento econômico daria um certo equilíbrio as desproporções já causadas.

  11. 11 alessio

    Eu sou a favor de cotas de acordo com a renda e contra cotas raciais.

    Sem contar que as cotas deveriam ser um paliativo de igualdade até que o ensino melhorasse e não uma progressão continuada.

  1. 1 Por uma vida mais saudável | SaiDaqui!
    Pingback em 20 nov 2009 às 9:46

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