Eu, meu melhor amigo, duas putas e nossas ex-namoradas

Sempre costumo dizer que quanto menor a sua expectativa em relação a algo, mais chances você tem de ser dar bem. É uma simples questão de lógica: você não espera nada, logo qualquer coisa que vier é lucro, certo?

Então imaginem quais eram minhas expectativas em uma quarta-feira, faltando apenas dez minutos para encerrar meu expediente. Para ser bem sincero, eram que nenhum cliente entrasse, que o ônibus estivesse vazio e que meus irmãos tivessem saído, assim poderia jogar vídeogame. Sim, não sou um cara muito ambicioso. Mas também tinha levado um pé na bunda da minha namorada e estava mesmo a fim de me trancar no mundinho alegre e feliz de GTA San Andreas. Nada como violência gratuita e imaginária para sublimar um coração machucado.

Mas bem-vindos as “Aventuras de Alessio Esteves no Mundo do Caos, onde tudo pode acontecer…”

Faltavam então míseros cinco minutos e eu já havia trancado a porta, apagado as luzes e arrumado a mochila e eis que o telefone toca. Suspiro e já atendo fingindo a educação e bom humor que o trabalho de vendedor exige. Mas não era nenhum cliente. Um amigo meu ia passar na Augusta para comprar ingressos para algum showzinho descolado no Stúdio SP e perguntou se eu não poderia acompanhá-lo e tomar umas brejas no tradicional Ponto de Encontro. Por que não? Uma bebedeira com amigos é sempre divertida, por pior que seja.

Chega ele acompanhado de uma amiga nossa e fomos comprar os malditos ingressos. Não gosto do Stúdio SP. Nunca fui lá, mas o público indie que faz fila na porta todo fim de semana já basta para não querer que eu entre. Meu amigo encontra umas conhecidas, gatinhas até, mas me olham com aquele ar de “não sou pro seu bico” e me limito a sorrir enquanto as amaldiçôo por dentro.

Finalmente chegamos no bar. Jogamos um bilhar, pegamos as cervejas e eu o meu tradicional conhaque. O clima na mesa não está exatamente o mais alegre. Meu amigo também tinha acabado um namoro fazia um certo tempo e ainda não estava 100%. Já nossa amiga estava passando um momento conturbado, pois sua namorada ia passar um tempo no exterior. Logo estávamos todos amaldiçoando Shakespeare por ter inventado essa merda chamada Amor. A certa altura do papo, ele solta:

- Eu tava mesmo era a fim de trepar, manja?

Então minha mente naturalmente pervertida começa a funcionar:

- Tamo na Augusta, porra! Vamos comer umas putas!

A mesa fica em silêncio por um certo tempo. Ninguém ali ainda tinha pagado por sexo. Eu mesmo já tinha entrado em um puteiro duas vezes, mas o máximo que fiz foi pagar um show de strip-tease. Nossa amiga é a primeira a se manifestar:

- Bom, então eu vou pra casa. Vai um pessoal colar lá. Depois que vocês saírem, apareçam.

Meu amigo olha pra mim:

- Vamos mesmo prum puteiro?

Respondo com a pergunta mais maldita do mundo:

- Por que não?

Antes que pudéssemos realmente pensar no que estávamos fazendo, já havíamos pagado a conta do bar, nos despedido de nossa amiga e estávamos subindo a Augusta. Ele pergunta:

- Em qual que a gente vai?

- Sei lá, a gente entra no primeiro em que o porteiro nos chamar.

E um deles nos chamou. Dez pilas para entrar com direito a duas cervejas. A casa tinha acabado de abrir. Nos olhamos e entramos. O lugar não era muito grande. Um bar no meio do salão, um palco no findo com um poste, sofás em todas as paredes. Iluminação toda avermelhada Nos ajeitamos no balcão e uma lésbica-caminhoneira nos dá nossas brejas. De clientes estávamos nós e mais um velho. Acendo um cigarro para parecer mais a vontade e começo a avaliar o mulherio local. Todas com trajes mínimos e realmente gostosas. Havia vindo aqui mais para incentivar meu amigo, mas tava vendo que eu ia acabar comendo alguém.

- Olá, já conhecem a casa?

Uma das garotas havia se aproximado de nós. Respondemos que não e ela pede que a acompanhemos. Descemos uma escada que leva aos quartos e uma sauna. Ela nos passa uma média dos preços dos programas. Achei caro, mas já estávamos ali mesmo, então foda-se. Voltamos para o bar e pegamos mais cervejas. Uma loura tingida me chama a atenção, mas ela estava do outro lado do balcão e não repara em mim. Noto então que meu amigo parece meio sem saber como agir. Tentando não parecer um tiozão falando com um moleque, digo:

- Mano, a parada é só não humanizar, saca? Tenha em mente que isso é um açougue e o que está desfilando na nossa frente são produtos e não pessoas. Se formos pensar muito, não rola.

Ele parece entender. Então para minha desgraça a garota por qual eu havia me interessado desce as escadas com o velho. Ê merda! Hora de começar a avaliar outras opções. Entra um bando de rapazes da mesma faixa etária que nós, mas de terno e gravata. Devem ser clientes habituais do local, já que cumprimentam as garotas e começam a bater papo. Alguns sentam-se e as meninas se insinuam, dançando e se esfregando neles. Fico pensando que se EU estivesse de terno e gravata elas poderiam estar se esfregando em mim também. Pelo visto nenhuma das garotas iria chegar em mim. A iniciativa teria que ser da minha parte. Então a loura que estava com o velho sobe as escadas. Já havia se passado tanto tempo assim? Merda, ela era minha primeira opção. Mas tinha acabado de dar pra um velho. Nada me garantia que qualquer outra das garotas estivesse zerada, mas essa eu TINHA CERTEZA que não. E num puteiro isso faz diferença. De qualquer maneira, a chamo para bater um papo. Pergunto quanto é o programa, se ela faz show, aquele papo básico. Ela é super-atenciosa, mas como não vou comê-la, resolvo deixá-la em paz. Ela dá um beijo no meu rosto e eu sinto seu perfume. Porra, ela podia ter acabado de transar com o velho, mas tava extremamente cheirosa! Não sei se foi o perfume, a bebida ou o clima, mas de repente me vi realmente querendo comer alguém. Outra menina me chama a atenção, pergunto a opinião do meu amigo e ele prontamente manda eu ir me foder. Ele nota que eu não entendo a indignação dele e diz:

- Porra cara, ela é igualzinha a sua ex!

- E daí?

- Pra que você vai pagar se você pode comer alguém igualzinho de graça?

Realmente a afirmação dele fazia um certo sentido. Sem contar que tinha um certo ar de perdedor você comer uma puta igual a sua ex-namorada. Pergunto a ele se alguém interessou e o cara aponta uma garota de vestido vermelho atrás de nós. Ela era realmente gata. Mas estava conversando com um dos caras da turma de terno. Ainda querendo transar, reparo em uma morena sentada bem perto de mim. Não era muito bonita, mas era muuuuuuito gostosa. E tinha a bunda grande. Foda-se, ia ser ela mesma. Dou um toque pro amigo que vou “dar uma sumida” e que era bom ele se arranjar logo também. Chego nela, cumprimento, pergunto o preço, o que ela fez e deixa de fazer. Ela vai respondendo. A parada realmente é um negócio e aí está a maravilha e o pior de tudo isso.

- Então, quer ficar conversando ou podemos ir para o que interessa? – pergunto.

Ela sorri, pega na minha mão e vamos em direção as escadas. Olho para meu amigo e noto que ele chegou na mina de vermelho. Me pego sorrindo. Entramos em um dos quartos, começamos a tirar a roupa e ela pergunta se eu não quero tomar um banho para “relaxar e tal”. Acho a idéia boa e vamos para o chuveiro. Ela vê minhas tatuagens e pergunta sobre o que são. Então ela se vira de costas para mostrar as delas. Meu Deus, ela é realmente gostosa. A agarro e começamos a dar uns malhos. Resolvemos ir pra cama de uma vez. Ela me pergunta o que eu gosto, o que eu quero. Eu respondo e ela faz exatamente o que eu havia dito. E faz muito bem feito. Não é a toa que as chamam de “profissionais do sexo”. Putaqueopariu. Acendo um cigarro, ela faz uma massagem em mim e conversamos frivolidades. Logo estamos transando de novo. O celular toca. Eu quero que se dane quem estiver me ligando. O tempo está acabando. Vamos de novo para o chuveiro e rolam mais uns malhos. O tempo então acaba. Acabo de me trocar e resolvo ver quem me ligou. Tinha sido minha ex-namorada! Acho que minha expressão de espanto deve ter sido tamanha que ela pergunta:

- Tá tudo bem?

- Tá… É que era minha ex no celular aquela hora…

- Acabaram faz tempo?

- Pra falar a verdade, não faz nem uma semana…

- Mas você tá bem?

- Desculpa, querida, mas não vou ser mais um cliente mala reclamando da ex pra você. Me recuso a fazer isso.

Ela não comenta mais nada. Nos despedimos e subo novamente ao bar. Nada do meu amigo. Parece que ele resolveu se arrumar também. Pego outra breja e acendo mais um cigarro. Alguns minutos depois ele sobre, e com a garota de vermelho! Mas que belo filho da puta! Ambos páram do meu lado e meu amigo pede para a garota dizer o nome dela. Eu ouço e não acredito. Era o mesmo nome da ex dele! Uau, um dia realmente estranho…

Ele se despede da garota, pagamos nossa conta e resolvemos ir pra casa da nossa amiga. Assim que coloco o pé fora do bordel, o celular toca. Era a minha ex de novo! Atendo e meu amigo faz aquela cara de “conta pra ela onde você tava!, conta, conta!”.

- Alô.

- Oi, tava ocupado?

- Pra falar a verdade tava sim…

- Desculpa, mas o que você tava fazendo?

Olho para meu amigo e solto:

- Tava num puteiro com um amigo…

- O QUÊ? Você tava transando com uma puta?

- Tava ué, qual o problema?

- Sei lá, não esperava isso de você…

- As pessoas mudam, ué…

- Usou camisinha pelo menos?

- Cê não tá me perguntando isso!

- Vai saber…

- Usei, caralho. Mas o que você queria?

- Ia te perguntar do show do Matanza sábado, mas depois a gente conversa… Te ligo amanhã. Beijo!

- Beijão.

Ela pareceu chocada e decepcionada e eu me pego ligeiramente feliz com essa reação dela. Sou um cuzão mesmo. Pergunto então para meu amigo como foi. A resposta dele me pega de surpresa:

- Não foi.

- Como assim? Broxou?

- Não exatamente. Fiquei trocando idéia com ela e meio que viramos “amiguinhos”. Aí não rolou.

- Porra cara! Eu te disse pra não humanizar, caralho!

- Ah, mas você me conhece… Quando ela me disse o nome dela já fiquei meio assim, mas ela era gata e resolvi tentar. Mas não rolou. Ficamos conversando. Sei onde ela mora, que facul que ela faz, que ela tem namorado…

- E você pagou mesmo assim?

- Paguei né? Rolando ou não, eu ocupei o tempo dela…

Putaqueopariu, só ele mesmo. Conto a parada do celular no meio da minha transa, ele dá risada e comenta:

- Cara, só a gente mesmo…

Acendo um cigarro e concluo:

- Isso vai dar um bom conto. Saca só: “Eu, meu melhor amigo, duas putas e nossas ex-namoradas”. Posso contar o que rolou com você também?

Ele dá de ombros:

- Pode ué, eu não fiz?

E vamos para a casa da nossa amiga acertando os detalhes da coisa toda, nos perguntando até onde as pessoas vão acreditar que tudo isso aconteceu mesmo e pouco se lixando pra isso.

9 Respostas para “Eu, meu melhor amigo, duas putas e nossas ex-namoradas”


  1. 1 Mário Henrique

    Augusta, Augusta… você ainda acaba matando a gente!

  2. 2 Fred Di Giacomo

    Fala, Jesus! Finalmente estou deixando um comentário aqui. O site ta massa! To com um novo projeto de blog, talvez você possa divulgar alguns contos seus lá! abrax!

  3. 3 Ivy

    Ah, a Augusta…

  4. 4 Ju

    Hahahahahahahahahah
    Meu Deus, por que será, mas eu acho que sei EXATAMENTE quem são os personagens, só pelas descrições? hahahah

    Só vcs, só vcs…

    Bjus

  5. 5 Marcelim

    Sei que não importa, mas isso aconteceu… Apenas um palpite meu, rerere.

    Abraços

  6. 6 Josy

    Vc sabe que eu gosto do que vc escreve né? Esse em especial…Maravilhoso, hahahahahaha

  7. 7 k.9

    CARA GOSTEI DA TUA ISTORIA TÚ É D+ . Cara vc devia faser u livro com esse titulo e essa istoria , e si for me avisa que eu vou ser a primaira a comprar . bota pra vender no shoppig tacaruna de Santo Amaro TÁ . mé manten emformada?

  8. 8 jonas

    ey cara gostei muito eu li e gostei eu so vi em 2012 mais tudo bem ta massa

  1. 1 O Protagonista 2.0» Arquivo do Blog » TOP 20 “O PROTAGONISTA 2.0” – ANO 1
    Pingback em 4 jun 2009 às 2:18

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