Tudo Errado

Três horas da manhã. Marcos está sentado no sofá da sala, abatido, lamentando sua vida. “Minha vida? Que piada!” – ele pensa. Ainda não se conformava do fato de Sílvia ter ido embora. Não se conformava do porquê ela ter ido embora. Amaldiçoava o dia em que se tornou um vampiro. E amaldiçoava ainda mais a ordem de vampiros ao qual pertencia. Por ordem de seus superiores, ele e mais alguns amigos se arriscaram para salvar Sílvia. Ela também era uma vampira e havia sido capturada por um laboratório farmacêutico. Para manter a existência dos vampiros em segredo, foi necessário resgatá-la e destruir alguns arquivos do laboratório. A missão foi um sucesso.

Então começaram os problemas. Sílvia não tinha mais onde ficar e Marcos ofereceu sua casa. Ela aceitou. Com o tempo, os dois se apaixonaram. Mas ela era uma Desgarrada, uma paria. Não pertencia a nenhum dos grupos vampíricos da cidade. Os superiores de Marcos não viram com bons olhos o fato dele ter oferecido abrigo a ela, mas ficaram quietos. Um romance, porém, era mais do que poderiam admitir. Um romance poderia nublar a mente de Marcos e fazê-lo esquecer que a Ordem está acima de tudo. Poderia fazê-lo até trair a Ordem. E tudo por causa de uma Desgarrada! Eles foram bem claros: “A expulse de sua casa e a deixe só, ou nós mesmos cuidaremos disso”. Marcos não queria vê-la morta pelos seus próprios erros. Acabou o relacionamento e a mandou embora.

Ele ainda se encontrava perdido em pensamentos quando sua campanhia tocou. Ao abrir a porta, uma surpresa:

- Zé?

O sujeito em frente a sua casa, um negro alto e forte, vive como um mendigo pelas ruas da zona leste de São Paulo. Mas ele não é um simples mendigo, é um licantropo, um ser com o poder de se transformar em um animal. Ele é um homem-gato. E parecia nervoso.

- Aconteceu alguma coisa? – pergunta Marcos.

O mendigo respira fundo

- ESTÃO TODOS MORTOS! MATARAM TODOS!

O vampiro não entende nada.

- Mataram todos quem?

- TODOS OS MEUS IRMÃOS ESTÃO MORTOS! E O ÚNICO QUE SABIA ONDE NOS REUNÍAMOS ERA VOCÊ!

Marcos subitamente entende. Descobriram onde os homens-gato se reuniam. Mataram a todos. E Zé pensa que foi ele.

- Escuta… Eu não sei de nada…

- CALA A BOCA!

Ele não sabe como reagir.

- O-o que você quer de mim?

O mendigo abaixa o tom de voz.

- Pegue a chave do seu carro. Se tentar qualquer gracinha, eu te mato!

Marcos vai até a cozinha e pega a chave. Resolve também pegar um revólver, por precaução. Ambos então entram no seu carro, um Fusca branco.

- Pra onde vamos? – pergunta o dono do carro.

- Não sei. Vai indo pra Radial

Marcos dirige para o local. O clima está tenso. Chegando na avenida, Zé diz:

- Você encosta no metrô Belém, desce do carro a vai embora. Nunca mais vai me ver.

O vampiro não entende. Mas faz o que foi pedido. Encosta o carro e desce. O licantropo passa então para o banco de motorista e tenta dar a partida no Fusca.

Súbito um impulso toma conta de Marcos. Talvez pelo fato dele ter perdido Sílvia. Ou ter sido acusado por um amigo de um crime que não cometeu. Ou por ter seu carro roubado nesse exato momento. Ou tudo junto. O resultado é que ele saca seu revólver e atira no carro, enquanto grita:

- DESGRAÇADO!

Para a sorte de Zé e o azar de Marcos, o tiro pega na porta. O mendigo pensa rápido e desce do carro, ficando fora da linha de tiro. Sabendo que agora é matar ou morrer, o vampiro começa a andar para trás, enquanto atira no tanque de gasolina. O carro então explode, se transformando em um monte de ferro em chamas. Após esperar algum tempo e não ver reação nenhuma, ele vai para o outro lado do que sobrou de seu carro. Para seu desespero, não há corpo. Mas há uma tampa de bueiro aberta.

- AGORA VOCÊ MORRE!

Zé surge de algum lugar, agora em sua impressionante forma de homem-gato, e salta em cima de Marcos. O vampiro tenta atirar, mas suas balas acabaram. Os dois caem no chão e, ao final de um rápido combate, só um se levanta. Zé, ao ouvir o barulho das sirenes, salta o muro do metrô e corre em direção aos túneis, deixando para trás o corpo sem-vida de seu ex-amigo.

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