Eu devia parar de ler Bukowski

É sério. O título acima não é brincadeira. Toda vez que leio algum livro do Velho Safado a merda se acumula ao meu redor. Da outra vez eu tinha lido “A garota mais bonita da cidade”. Larguei meu curso de Administração de Empresas no último semestre para trabalhar de assessor de imprensa em uma loja de artigos esotéricos nos fins de semana e em um barzinho perto da Faculdade São Judas durante a semana.

Havia várias festas pagãs nessa loja em que eu trabalhava. No final de quase todas eu estava um uma das salas de Ioga transando com a dona da lugar. Ainda tenho nas costas as cicatrizes das chicotadas que ela me deu na época. Já quando o bar fechava o dono sentava com os funcionários e ficávamos bebendo até altas horas da madrugada. Praticamente chegava em casa quase toda noite bêbado.

Em casa eu ficava ouvindo música, tomando café, fumando e escrevendo. Desse período saíram dois livros não publicados e algumas poesias que fariam parte de uma antologia anos depois. A editora dessa antologia eu conheci em um sarau gótico onde eu declamava letras de músicas do Rogério Skylab e de desenhos infantis dos anos 80. Também declamava minhas poesias, mas só as piores.

Eu não tinha muito dinheiro, apesar dos dois serviços. Meus amigos bancavam meus porres, que não foram poucos. Fiquei quase 1 ano nessa vida, mas comecei a namorar uma mulher mais velha, advogada e thelemita e acabei voltando a uma vida mais normal. Assim que arrumei um trampo minimamente decente e comecei a entrar nos eixos, o namoro acabou por causa de uma discussão sobre uma viagem de carnaval. O pior é que foi uma viagem onde não comi ninguém.

Agora voltei a ler Bukowski. Um amigo me emprestou 3 livros dele e estou lendo a coletânea de contos “Numa Fria”. E de novo a merda começa a escorrer. Era pra ser uma simples visita a uma amiga no interior de Sampa. Mas no dia seguinte ao da minha chegada, acordo as duas horas da tarde e antes de ir pro bar ver o jogo do São Paulo e Palmeiras já tinha bebido dois copos de whisky, uma dose de tequila e outra de arak. Sem ter comido nada ainda. Durante o jogo no bar perco as contas de quantas cervejas tomei, mas foram pelo menos mais três doses de conhaque. A noite acaba comigo transando com ela e um amigo nosso olhando, depois ele entra na brincadeira e por fim fico fumando enquanto olho os dois transando.

No dia seguinte estou no ônibus lendo o resto do livro tentando não pensar nas conseqüências do que rolou em minha viagem. Todos dormem e só a minha luz de leitura está acesa. Até que dois malditos evangélicos resolvem bater papo. Não seria problema se eles não falassem alto e dessem a impressão de que a conversa deles era uma tentativa de converter todos os passageiros do ônibus. Estavam sentados bem atrás de mim e a conversa começou a interferir na minha leitura. A gota d água foi quando eles resolveram ligar o rádio do celular de um deles. Parece que um conhecido ia ser entrevistado em um programa de uma rádio evangélica naquele momento. Era o maldito celular ligado e eles comentando em alto e bom som o quanto aquilo era abençoado e coisas do gênero.

A essa altura eu já queria ter uma Taurus para descarregar na cara dos dois. Mas resolvo pegar a garrafa de conhaque que minha amiga me deu e abrir. Tomo um gole, permitindo que o cheiro da bebida se espalhe um pouco. Então me viro para o banco de trás:

- Aceitam uma dose de conhaque?

Os dois estranham e um deles responde:

- Nós não bebemos.

- Engraçado. – comento. – Eu não sou crente e mesmo assim estou sendo obrigado a ouvir esse programa de rádio. Ou vocês desligam isso ou colocam um fone de ouvido, senão vou falar com o motorista acho que nossa chegada em São Paulo pode atrasar.

O filho da puta abaixa o volume do celular e então pega o fone de ouvido. O resto da conversa deles durante a viagem se desenvolve num tom que não me incomoda. Mais dois livros do Buk me esperam assim que eu chegar em Sampa.

4 Respostas para “Eu devia parar de ler Bukowski”


  1. 1 Trevis

    Crentes… Se estivessem apenas em onibus e lugares aleatórios, minha vida seria 50% menos estressante. Ou menos engraçada?

  2. 2 Papai

    Não deixe sua querida mamãe ler esse texto senão ela vai ter uma sincope.

  3. 3 Freud

    Assim… Em boas partes dos seus posts você comenta que nem tudo o que escreve é real, apenas uma parte, e que você nos deixa imaginar quais partes são verdade.

    Isso deveria ocorrer com os contos, e não com textos arquivados em “blog”.

    Assim, temos a certeza de que você deu pro cara.

  4. 4 alessio

    HAHAHAHAHAHAH!!!

    Arrumado…

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