“Medo do escuro
Medo do Escuro
Tenho um medo constante
De algo que está ali.”
- Iron Maiden, “Fear of the Dark”
Tudo as luzes apagadas até onde a vista alcança. Linhas de celulares congestionadas. Pessoas passam andando tão rápido que quase correm. Carros ou se movem muito devagar por não saber o que há na próxima esquina ou muito rápido em frenesi para saber se tudo está bem em casa. O sinistro silêncio é ocasionalmente interrompido por sirenes de ambulâncias e carros de bombeiros. Algumas pessoas ficam nas portas de casa ou próximas a pontos de ônibus, esperando por alguém que não sabem se vai chegar. E no horizonte há uma forte luminosidade laranja oscilando entre colunas de fumaça, indicando um incêndio.
Sinopse do novo filme-catástrofe que vai arrebentar nessa temporada nos cinemas? Não. Isso foi o que eu vi da janela do meu quarto durante o blecaute que houve em São Paulo e boa parte do país. E olha que onde eu moro ele durou somente duas míseras horas.
É nessas momentos que percebemos como esquecemos de algumas coisas básicas. Quantos tinham rádio de pilha pra poder ouvir o que estava acontecendo? Quem sempre ficou feliz com os baixos custos de um Netfone se deu mal porque eles NÃO FUNCIONAM na falta de energia. Telefones sem fio também não. Aí foi todo mundo usar o celular e o serviço sobrecarregou. O metrô parou e quase ninguém sabia indicar rotas alternativas. Pelo rádio via celular ficamos sabendo que a luz acabou em grande parte do país e ainda não se sabia toda a extensão do apagão. Recomendam que ninguém saia de casa.
Meu irmão ficou preocupado que a namorada dele não chegava da faculdade e foi pra rua esperá-la com receio de que ela andasse sozinha por dois quarteirões. Depois de meio hora, minha mãe começou a ficar preocupada com ele sozinho ma rua e lá fui eu ficar com ele. Não que minha forte presença fosse fazer qualquer diferença em caso de confusão, mas pelo menos minha mãe ficava menos histérica. E eu tinha uma ótima desculpa para ver como as coisas realmente estavam. “A história está nas ruas.”, como diz Spider Jerusalem.
Fiquei cerca de uma hora com meu irmão. O problema de andar nas ruas durante um blecaute não é a escuridão, mas sim uma luz da carro na sua cara justamente quando seu olho já estava ficando acostumado. Ou seja, se você anda na contramão fica com a vista ofuscada a maior parte do tempo. Outro problema é a paranóia. Qualquer um que está andando subitamente vira em assassino-ladrão-etc e você tenta evitar até passar perto. E o engraçado é que a pessoa que passa por você tem o mesmo medo. Qualquer pássaro ou bicho que passa voando na sua cabeça ou é uma coruja ou um morcego, bichos usualmente relacionados à coisas ruins.
E os carros? Parece que os motoristas perdem noção de espaço pela falta de luz nas ruas. Andam devagar ou rápido demais. Fazem curvas muito fechadas ou muito abertas. Não estava em nenhuma via movimentada e quase presenciei três acidentes.
Meu irmão ficava cada vez mais preocupado. Ligava para a namorada de minuto em minuto e sempre dando “REDE OCUPADA”. Ele sequer sabia se ela havia conseguido sair do metrô. Passava da meia-noite, em breve os ônibus encerrariam suas atividades e nada da garota. E a espera sem nenhuma notícia mata. Até eu que estava relativamente calmo comecei a me preocupar. Mas no final todos foram dormir são e salvos. Pelo menos em casa. Nem todos tiveram finais felizes.
Explicações oficiais sobre “descargas elétricas” e afins, independente de serem verdadeiras ou não, nunca serão suficientes. Paranóicos já associam esse evento com o iminente fim do mundo em 2012, distração para encobrir eventos mais sinistros e por aí vai. Governantes e companhias elétricas despejam comunicados oficiais através de suas assessorias e tudo vai acabar ficando por isso mesmo. Mas pelo menos o Lula já tem seu próprio apagão.
Mas o que fica mesmo de episódios como esse é que agimos por puro instinto. Fazemos o que temos que fazer independente de tudo. Eu e meu irmão não nos damos muito bem faz um tempo já, mas fiquei lá com ele o tempo necessário para ele e minha mãe ficarem menos tensos. Mal trocamos palavras, mas estávamos juntos naquela esquina escura. Meu outro irmão pura simplesmente foi dormir. Quanto a mim, quando soube que o apagão estava muito além da cidade de São Paulo, a primeira coisa que fiz foi ligar para Americana para saber se tudo estava bem com ela. E fiquei aliviado quando soube que ela não estava sozinha e sim na casa de uns amigos esperando a luz voltar. Citando King Mob: “É horrível quando você percebe que é igual a todo mundo.”
O sangue é mais fote do que tudo \o
ok aqui no RS que eu saiba não tivemos blecaute, acabou dando muito vandalismo?
O FIM DO MUNDO ESTÁ PROXIMO KKKKKKKKKKKKKKKK
Isso é que dá invocar Cthulhu à toa
Pois é meu caro, os fatos apenas existem, as explicações para os mesmos nem sempre são necessários ou desejados…
Pôxa, queria ter achado esse post antes… Daí dava até pra brincar e perguntar se o post anterior se chamou “O dia mais claro”…
Wait! Ainda dá!