Na chamada Internet 1.0 era comum recebermos “e-mails abaixo-assinados”, onde da mesma maneira que nos abaixo-assinado comuns, vinha um texto explicando a causa do abaixo-assinado e as assinaturas em si, mas no caso da Internet você colocava seu nome, RG, cidade e e-mail. Cheguei a assinar duas ou três dessas, quando eram assuntos mais regionais e específicos, como a saída de um vereador corrupto (quase um pleonasmo aqui, hein?), por exemplo.
Mas de repente comecei a receber coisas sobre legalização do aborto, para interromper a matança de golfinhos não sei aonde, para libertar um preso político em algum outro lugar. As vezes esse e-mail vinha acompanhado de um site que explicava tanto o movimento quanto sua atuação no mundo. Quando eu via que era algo mais organizado, até assinava, mas aos poucos fui parando com isso e também parei de receber esse tipo de mensagem.
Mesmo na época em que eu assinava esse tipo de coisa, algo me incomodava. Muitas vezes nas ruas eu assinava algo porque a pessoa com a prancheta ou mesinha chegava em mim, conversava comigo e me convencia de que a causa era importante. Havia um olho no olho, um debate. Nem sempre eu era convencido, mas quando o era assinava com gosto. Tanto que só fui decorar meu RG para não ter que toda hora abrir a carteira para checar o número. Aí você pegava aquela folha e tinha um monte de nomes com letras distintas. À minha letra horrível era acrescentada lá. Cada assinatura foi alguém que parou, conversou com um militante e resolveu assinar. Você olhava ao redor e via mais duas ou três pessoas debatendo o assunto com outros pedestres e mais de uma vez voltava para casa com um panfleto explicativo.
Bem diferente desses e-mails. Comecei a notar que as vezes a pessoa que me mandava nem assinado tinha. Ela não concordava, mas sabia que eu concordaria e por isso me passou? Não resolveu assinar, mas achou a discussão interessante e mesmo assim repassou? Ou saiu repassando sem critério só porque era algo “público” ou “político”. Isso começou a me levar a questionar todos aqueles e-mails que “assinavam” a parada. Parecia mais animador você ter pessoas do país inteiro (e as vezes do mundo) assinando, mas começou a me parecer que isso acontecia porque era mais fácil, seguro e cômodo e não porque havia um mínimo de engajamento.
Pensem comigo: para organizar um abaixo-assinado nas ruas, você no mínimo precisa de tempo e paciência. Tempo porque vai ter que ficar umas boas horas em pé em algum ponto movimentado da cidade. E a não ser que você seja um “militante profissional” (eles existem, acredite), ou vai fazer isso nas horas de folga ou vai ter que faltar no trabalho. E paciência porque você vai ouvir muitos “nãos”, pessoas que discordam radicalmente da causa que você divulga e outras que te taxarão de vagabundo pra baixo pelo simples fato de estar ali. Mas ao menos as pessoas que assinavam estavam minimamente conscientes de tudo.
E por e-mail? Pesquise o assunto no Google e edite o texto para torná-lo mais “engajado” à causa. Então dê um “ctrl+c e ctrl+v”, mande para sua lista de contatos e espere em sua casa isso voltar com “várias assinaturas”! Cadê o esforço, a práxis política, o debate? Aliás, alguém sabe de algum abaixo assinado virtual que resultou em algo?
Ao que parece muita gente percebeu isso também. Faz tanto tempo que não recebo e-mails desse tipo que é seguro supor que essa prática caiu em desuso. Isso não quer dizer que não surgiram outros meios desses “militantes virtuais” exercerem suas práticas e nem que o fazer político na Rede Mundial se resume a isso.
E quais a práticas que considero efetivas? Falarei sobre isso no próximo texto.
Agradeça a caixa de spam. xD
Como você mesmo já falou nunca ouvi falar de nenhuma campanha via e-mail que tenha obtido qualquer resultado, uma clássica punhetagem.
“Porque no meu tempo, do ativismo moleque…”. Tá ficando velho, hein? Eu assinei uma abaixo assinado online ontem. Ela não me chegou por e-mail, mas a encontrei por um site. O que deve ter ocorrido é que as pessoas perceberam é que encher a caixa de alguém com mensagens do tipo não é algo que funciona. Só uma mudança de abordagem, nada mais.
Apesar que eu sempre achei isso estúpido. De que adiantam 10 mil nomes se chega um dono de uma grande empresa pensando o oposto e tem mais peso na decisão?
o que me irrita mais é que o pessoal enche tanto o saco via web, e na maioria das vezes não adianta nada. protestar não funciona dessa forma, aliás, é pedir pra causa ir pro limbo e pro esquecimento.
Bixo, sinto-me ofendido por anexar o termo masturbação a algo negativo.Se uma bomba explodir sua casa você já sabe quem foi=P
abraços e atualise mais vezes, homem.
Concordo com o Raul O’Bedlam!
E o texto ficou bem prolixo, tirando isso não disse nada de interessante
Julius, acho que você e eu temos um entendimento diferente do que é prolixo…
E você não entende ironias também.