Um belo fim

Estava limpando o chão do bar quando vi um casal se beijando nas mesas do fundo e me lembrei dela. Apenas algumas horas antes ela havia estado por aqui na hora do meu intervalo para conversarmos. Estávamos nos pegando havia quase 1 mês e resolvemos acabar a coisa toda de comum acordo.

A relação não era ruim, de forma alguma. A química era maravilhosa, tanto nas idéias quanto na cama. Ela não só curtia muita coisa que eu curtia como também apresentamos muita coisa nova um para o outro. Literatura beat. Histórias em Quadrinhos. RPG. Filosofia. Ocultismo. Mas eu estava no auge da minha porra-louquice e ela também. Então eram noites mal-dormidas devido a baladas regadas a bebidas e drogas e pegação desenfreada.

Nosso primeiro beijo foi num boteco um pleno meio-dia em uma quarta-feira bebendo cerveja e ouvindo Janis Joplin. Ela queimou meu braço com a ponta do cigarro durante o beijo. Nossa primeira pegação forte foi no After Dark, umas das baladas góticas mais podres que eu já tinha ido. Nossa primeira transa foi num domingo de manhã, íamos ver alguma exposição na FIESP e abortamos tudo no primeiro motel que vimos no caminho. Mas um dia fomos expulsos do Madame Satã bêbados às seis da manhã porque os caras queriam fechar e começamos a reclamar “que era open bar e só podia fechar depois que saíssemos”. Isso porque durante a noite nós dois perdermos a conta de quantas pessoas pegamos. Saímos de lá, atravessamos a rua e dormimos abraçados na calçada do outro lado.

Foi aí que comecei a questionar onde tudo isso estava me levando. Quer dizer, eu já faço muita merda sozinho, e agora esta com alguém que fazia tanta merda quanto eu. Ao invés de um conter o outro, um abraçava a idéia do outro e a coisa descambava sempre. Nós sabíamos que era uma relação de momento e nunca sequer cogitamos namoro. Mas creio que no dia do Madame extrapolamos em vários sentidos. Na segunda-feira ela iria dar uma passada no meu serviço e eu estava disposto a dar um fim na relação antes que nos afundássemos mais ainda.

Quando ela apareceu na porta do bar, vi em seus olhos que havia pensado a mesma coisa que eu. Falei pro meu chefe que ia fazer meu intervalo e fomos para uma praça fumar e conversar. E ela me disse as mesmas coisas em que eu estava pensando. “A gente junto é legal, mas não se controla”, “Estou numa fase em que preciso de alguém mais centrado”, “Realmente exageramos no fim de semana”, e por aí vai Foi tudo muito tranqüilo, muito calmo. Parecia que pela primeira vez estávamos sendo sensatos. Voltamos para o bar, bebemos uma cerveja, desejamos sorte um para o outro e ela se foi.

E agora estava eu vendo aquele casal se pegando no fundo do bar e me dando conta de que pelo menos com ela eu não teria mais isso. Foi quando começou a tocar alguma música da Marisa Monte. Peço a vocês que visualizem a cena, com a trilha sonora rolando e a câmera se afastando lentamente até ficar tudo escuro. Eu mesmo visualizei isso, me peguei sorrindo e achei um final digno. Tanto que disse em voz baixa: “Valeu, roteirista. Valeu, diretor”.

5 Respostas para “Um belo fim”


  1. 1 @amanda_arm

    Um belo fim.
    Valeu Alessio ^^

  2. 2 Raul O'Bedlam

    Legal \o pelo menos você tem uma vida divertida^^
    E mais uma prova a vida é um seriado \o/
    abraços

  3. 3 Kinhaaaaa

    Você e seus seriados.
    Realmente tem coisas que são melhores do jeito que devem ser.

    Beijinhosss

  4. 4 Sergio Jose Esteves

    Muito o fim, digno de filme frances.

    Parece filme americano super romantico.

  1. 1 Tweets that mention Um belo fim em O Protagonista 2.0 -- Topsy.com
    Pingback em 27 mai 2010 às 14:23

Deixe um comentário