Constantine. A simples menção deste nome em certos círculos abria as portas para o Paraíso ou para o Inferno, seja metafórica ou literalmente falando. A família Constantine parecia carregar uma espécie de maldição e praticamente todos os seus membros se envolveram com o ocultismo, fossem como carrascos ou como vítimas. Mas o inglês John Constantine elevou a fama da sua família a níveis nunca antes alcançados. Diziam por aí que se aproximar demais dele era se aproximar da morte e essas histórias não eram nem em pouco exageradas. Se houvesse apenas inimigos mortos a situação não seria ruim, mas havia amigos e amantes entre a pilhas de cadáveres que se amontoava ao redor dele. E alguns contavam que até mesmo vampiros ancestrais, anjos e demônios pereceram ao medir forças com o mago inglês. Quando indagado pessoalmente sobre a veracidade dessas histórias, John Constantine se limitava a sorrir, soltar fumaça e dizer: “É o que dizem”, numa imitação sarcástica de outro sujeito com a iniciais JC.
Porém até um canalha como John Constantine as vezes precisa de um descanso, deixar a armadura de lado. Havia poucos lugares onde ele poderia fazer isso, poucas pessoas que mereciam tamanha confiança. E a casa de Brendan Finn era um desses lugares com uma dessas poucas pessoas. Era um casarão que mais parecia um castelo e ficava em um local isolado da Irlanda. Quando as coisas pesavam demais, ele passava alguns dias por aqui, longe de tudo e todos, deixando a magia e os engodos para trás. O irlandês era amigo de longa data de Constantine e eles haviam rodado boa parte do mundo, bebendo, brigando e aplicando golpes a torto e direito. Mas Finn cansou-se dessa vida, arrumou uma companheira e passou a viver por ali.
Venta muito em frente ao casarão e o mago inglês desiste de tentar acender o cigarro, guardando o maço e o isqueiro em seu velho e encardido sobretudo bege. O único som em quilômetros é o das ondas se despedaçando na encosta atrás da construção. O céu está carregado de tons de cinza e parece que vai chover , mas hoje a porta não vai se abrir. Brendam Finn não vai receber John Constantine com suas piadas sem graça e suas opiniões sempre certas sobre qualquer assunto. Hoje faz exatamente 1 ano que Finn morreu e John ainda não sabe o que veio fazer aqui.
- Quando foi que você virou um babaca sentimental? – ele pergunta em voz baixa a si mesmo.
Por fim começa a chover e ele resolve voltar para o taxi. O motorista liga o motor e fica aguardando o anúncio de seu destino. John finalmente acende um cigarro, dá uma última olhada para o casarão e diz:
- De volta para… para… Merda. De volta pra Belfast, chefe.
O que John esperava vindo aqui? Algum tipo de redenção? Já havia salvo seu amigo das garras do Diabo em pessoa, não havia sido o suficiente? Ou será que essa data foi a desculpa perfeita para ele tentar rever Katherine Ryan?
A mera lembrança dessa mulher trazia sensações diversas para o mago inglês. Ela foi umas das mulheres que mais próximo chegou de ver o que havia atrás das milhares de máscaras que John usava. E por isso mesmo foi a que mais o machucou quando eles acabaram. Haviam se visto uma única vez em Londres anos após tudo dar estupidamente errado. Ele era orgulhoso demais para sequer ligar para ela para saber se tudo estava bem. Então veio a data, lembrou-se de seu velho amigo Finn e veio para a Irlanda “prestar uma homenagem”.
Por todo o caminho de volta ele amaldiçoa sua estupidez. Não se dera ao trabalho de avisar que vinha e esperava o que, um encontro ao acaso? Isso já havia acontecido duas vezes, era muito exagero contar com uma terceira, mesmo para um filho da mãe com a bunda virada para Lua como Constantine. Agora iria embarcar para Londres sem nem ter procurado por ela. Talvez tivesse receio de perceber que ela havia superado totalmente o que houve. Isso magoa qualquer um, seja por amor , seja por puro ego ferido. Ou talvez seu medo fosse justamente o contrário, que ela ainda o amasse e possa querer reatar, o que significaria se abrir de novo, tornar-se vulnerável de novo. Estava contando com a sorte e desta vez ela não estava ao seu lado. Quem sabe fosse melhor assim. Existem perguntas que não devem ser feitas, não se você não quer saber a verdade.
O carro para em frente ao aeroporto e John volta à realidade. A chuva agora não era mais do que uma fina garoa, daquelas que te levam a sair de casa sem guarda-chuva e te encharcam já na primeira esquina. Paga o taxista, desce e acende mais um cigarro. Então avista um pub ao longe, no fim da rua. Ele se pega sorrindo. Brendan Finn era um beberrão inveterado. Morreu de cirrose, dentro da sua adega, bebendo a melhor cerveja do mundo. Como John poderia ser tão tapado e ir lembrar seu velho amigo se lamentando em frente ao seu antigo lar em vez de encher a cara no primeiro local apropriado? Ninguém o esperava em Londres, ninguém que valesse a pena pelo menos. Levanta a gola do sobretudo para proteger-se do vento e vai em direção ao pub.
(continua…)
Primeiro a ler.Hahahahahha!
E FELIZ MUNDIAL DO ROCK, SEU MERDA!
Até agora bacana.GO GO GO FIC!