Constantine. Quanto mais Cassidy descobria sobre esse nome, mais irritado ficava. Fazia anos que não vinha para a Irlanda – sua terra natal – e quando resolve voltar para visitar seu velho amigo Brendan Finn descobre que o sujeito está morto. Foi encontrado dias depois em sua velha adega subterrânea, seu corpo já em estado de decomposição, com um copo de cerveja vazio em mãos. Ficou sabendo que a causa oficial da morte foi cirrose, mas duas pessoas estiveram em sua casa perto da data estipulada do falecimento. Uma delas ele ainda não conseguiu descobrir quem foi, mas soube rapidamente que a outra era John Constantine. Perguntando aqui e ali, descobriu muito sobre ele. Parecia que vinha bastante para estes lados e todos os donos de bares e pubs lembram de terem visto ou ouvido falar nele, mas ninguém o conhecia profundamente. Muitos diziam que ele era um charlatão inglês que se passava por bruxo e ganhava a vida aplicando golpes em crédulos mundo afora. Outros diziam que era um trambiqueiro profissional que ganhava a vida comprando e vendendo objetos raros contrabandeados. Também disseram que vivia do dinheiro que ganhava jogando pôquer. Alguns poucos não chegavam a que ele realmente era um bruxo, mas diziam que coisas estranham sempre aconteciam com ele e com quem estava por perto. Porém uma informação era consenso: Constantine é um cara perigoso e andar com ele significa correr perigo também. Mais de uma vez ouviu estórias de “um amigo de um amigo” que tinha morrido ao cruzar o caminho do inglês. Eram pessoas perfeitamente sãs que se matavam, assassinatos em circunstâncias misteriosas, internações em hospitais psiquiátricos, desaparecimentos nunca solucionados. Todo mundo tinha uma opinião sobre John Constantine e nenhuma era boa.
Cassidy conheceu Brendan Finn nos Estados Unidos uns bons anos atrás, quando estava na pior por causa de seu vício em heroína. O dinheiro havia acabado fazia um tempo e sua companheira o abandonou após uma discussão que acabou com ele dando um tapa na cara dela. Estava difícil conseguir emprego e todos seus amigos ou conhecidos no momento não o emprestariam dinheiro sabendo que gastaria em drogas. Pensou em assaltar alguém, mas antes disso resolveu tentar conversar com seu fornecedor habitual. Bill era um sujeito mesquinho que sabia que o fato de ser o único fornecedor de heroína na região lhe dava poder sobre as outras pessoas e frequentemente abusava desse poder. Mas Cassidy o conhecia desde antes dele ser traficante e esperava que isso pesasse a seu favor para conseguir pelo menos a dose desse dia. Claro que não adiantou nada. Mas em nome da “amizade” deles, Bill o forneceria uma dose se Cassidy fizesse sexo oral nele. Até o fim. O irlandês precisava daquela dose. Quem sabe se fizesse tudo direito ele não ganhasse até um pouco a mais? Tentando pensar que isso era melhor que assaltar outras pessoas, ajoelhou e fez o que tinha que fazer, amaldiçoando mais a si mesmo que o seu fornecedor. Quando acabou, Bill o mandou ir embora, já que não gostava de andar com “viados viciados”. Cassidy teve um acesso de fúria e partiu pra cima dele, mas havia se esquecido dois capangas do traficante. Levou uma porretada nas costas e logo estava no chão sob uma avalanche de chutes, socos e porretes.
Exatamente neste momento que Brendan Finn passava por aquela viela e ao ver a cena correu pra cima para tornar a briga ao menos mais justa. Acontece que Finn era um sujeito um tanto quanto grande e estava ligeiramente bêbado, o que o tornava mais valente e inconseqüente que o usual. Bill e seus dois capangas foram pegos de surpresa pela visão do gigante irlandês em fúria e saíram correndo assustados. Foi uma agradável surpresa para Brendan descobrir que Cassidy também era irlandês. Aparentemente Brendan não estava bem devido há um golpe que deu errado e estava bebendo e lamentando o resultado desastroso de tudo. Bater em três covardes que estavam espancando uma pessoa parecia uma boa maneira de descontar suas frustrações, mas a fuga deles impediu seus planos, de modo que ajudou Cassidy a ficar apresentável e foram ao bar mais próximo. Várias confissões e garrafas de cerveja depois, Brendan precisava ir e deixou seu endereço na Irlanda para Cassidy, junto a uma quantia considerável de dinheiro. Ao questionar o que era aquilo, Brendan sorriu e disse que estava emprestando esse dinheiro para que seu conterrâneo conseguisse o que precisava, desde que se comprometesse a sair dessa e fosse visitá-lo quando conseguisse. Anos depois Cassidy estava limpo e longe de casa havia tempo demais. Seguro de que ninguém mais o reconheceria, finalmente foi visitar aquele que anos atrás o havia ajudado.
Agora Cassidy estava em um pub perto do aeroporto de Belfast lamentando seu maldito azar. Nunca mais iria poder agradecer Brendan Finn por tê-lo ajudado anos atrás. Talvez por isso estivesse atrás de John Cosntantine. Em sua cabeça descobrir o que realmente havia acontecido era uma maneira de honrar a dívida que tinha. Sabia que dependendo do que descobrisse a possibilidade de ter que quebrar uma cabeça ou duas era grande, mas não importava. Não iria voltar para os Estados Unidos sem saber a verdade. A próxima parada então era Londres ou Liverpool, atrás de mais pistas.
- Escuta, não era você que estava atrás de John Constantine?
Os pensamentos de Cassidy são interrompidos pelo dono do pub. Pego de surpresa, reponde:
- Hã… sou eu sim… Por quê?
O dono do pub aponta para uma mesa no fundo do bar:
- É aquele sujeito ali. Boa sorte.
Ele não acredita no que está acontecendo. Estava a dias atrás desse inglês e na hora em que está se preparando para viajar para a Inglaterra o encontra no mesmo pub em que está! Resolve observar a figura antes de fazer algo e nota que ele não parecia grande coisa. Loiro, olhos azuis, barba por fazer, parece ter quarenta e poucos anos. Veste um encardido sobretudo bege por cima de uma camisa azul, gravata preta frouxa e calça social. Pela quantidade copos vazios e pontas de cigarro no cinzeiro não é exatamente um sujeito saudável e estava aqui havia um tempo já. Olhando assim para ele não parecia o monstro que lhe haviam dito até agora, mas Cassidy sabia mais do que ninguém como as aparências enganavam. De qualquer maneira era perfeito. Vira sua cerveja e resolve ir ao banheiro antes de abordar o homem.
(continua…)
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