Monthly Archive for dezembro 2010

Os Invisíveis – Dia de Treinamento – Parte I

- Alô.

- Leósias? É o Noname.

- Eu sei…

- Tá ocupado?

- Eu TAVA no meio de uma consagração à Onan, mas acho que pode esperar. Manda.

- É que hoje é dia de levar o recruta pro teste de campo.

- Porra, por que sempre eu que pego os novos membros?

- Você lembra o que aconteceu quando EU tentei treinar alguém, né? Desculpa cara, mas você é quem faz isso melhor. E alguém tem que fazer.

- Tá, tá… Vou levar o moleque no Madame. Se me ver com ele de amanhã de manhã, é porque se saiu bem. Vou levar Henri e o Zloth.

- A boa e velha maldição?

- Exatamente…

*************

Estação São Joaquim. Mais um cigarro é aceso. Ainda faltam cinco minutos para o horário combinado, mas mesmo assim o rapaz parece impaciente. Estava com um casaco preto, cabelos cuidadosamente espetados com gel, coturno e óculos escuros. Tinha feito dezoito anos semana passada e pela primeira vez iria ao Madame Satã, uma das baladas góticas mais tradicionais de São Paulo. Mas não era isso que o deixara tenso. Pelo menos não só isso. Tinha tomado um pé na bunda da namorada e ainda não havia engolido a idéia de voltar a ser solteiro. E também havia conhecido uns caras bem estranhos, para dizer o mínimo. Tinham algumas idéias diferentes acerca de religião, política, filosofia, enfim, sobre a realidade. Diziam que tudo não passava de construção coletiva e que por isso mesmo poderia ser desconstruído. Mais de uma vez falaram que mais dia menos dia iriam mostrar como. Aí o chamam pra ir numa… balada? Bem, ele queria ir nesse tal de Madame fazia um tempo já e…

- Bruno?

O rapaz leva um susto! Estava tão absorto em seus pensamentos que não percebeu eles se aproximando. Eram três e desses ele só reconhecia o do meio. Cabelos ligeiramente revoltos penteados para trás, usando suíças e óculos vermelhos. Vestia roupa social preta, um sobretudo bege e uma bengala de madeira. Era ele quem o tinha chamado. Bruno o conhecia apenas como Leósias. O sujeito sorri e diz:

- Bem cara, esses aqui são Zloth e Henri.

O primeiro era um cabeludo enorme vestido de preto da cabeça ao pés, com pinta de metaleiro. Já o segundo era um cabeludo de óculos, ar de intelectual. Estava com uma camiseta do filme “Laranja Mecânica” e calça de couro. Todos se cumprimentam, “muito prazer” de um lado, aperto de mãos do outro e começam o caminho. Cigarros são acesos, alguns comentários surgem sobre uma gostosa que estava no metrô… Bruno relaxa, afinal, não parecia muito diferente de uma balada comum, como qualquer outra que ouviu falar por aí. Mas então Zloth solta:

- Bruno, você tá a par da maldição que ronda quando se sai com o Leósias, né?

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