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Os Invisíveis – E.S.P. – Parte Final

Um mês depois…

de: noname@fdc.com

para: mcaos@fdc.com

cc: Associação Filhos do Caos

Querida Mamãe,

Depois da merda que fizemos no ESP passado, é com muito orgulho que anuncio a eliminação elementos nocivos do encontro e, mais ainda, tomamos posse dele!! Isso mesmo que você entendeu, o encontro agora é NOSSO!!

A estratégia foi simples e sutil. Resolvemos que era besteira ir para o confronto direto. Não queríamos chamar a atenção. Tiramos nossos diplomas das gavetas e usando de jornalismo, publicidade, psicologia e letras (com um pouco da mágika para potencializar tudd, é óbvio) minamos a força de Bela, Abelhinha e seus asseclas.

Mandamos um release para a Folha falando sobre os encontros, indicando quem organizava a coisa. O jornal apareceu lá, entrevistou todo mundo e a matéria foi capa do Folhateen. Imediatamente usamos e-mails fakes na lista Gaia-Paganus e nos mostramos indignados com o fato das meninas de Sampa saírem no jornal sem sequer citarem a organização nacional/mundial lá no Rio. A tal de Freya engoliu a isca, ficou mordida e foi tirar satisfação, afinal as meninas deveriam ser subordinadas a ela, pelo menos em tese.

Como o clima não andava lá muito bom, com isso explodiu uma briga de egos sobre quem manda em quem, qual tipo de satisfação deveria ser dada, um lado acusando o outro de usar os encontros para se promover e tudd sendo cuidadosamente aumentado pelos nossos mails fakes. Ao mesmo tempo o Leósias e Dante começaram a participar de lista tentando apaziguar as coisas, num diálogo para reconciliar os lados.

O resultado foi que as meninas xingaram tanto a Freya q foram expulsas da organização do ESP e como os únicos em Sampa dispostos a segurar a barra eram os nossos (que se mostraram “cordiais”, “sensatos”, “bem humorados” e blábláblá), eles foram prontamente aceitos como os novos organizadores do evento em São Paulo.

Imediatamente fomos ao Parque Trianon realizar um ritual para limpar o lugar energicamente e marcá-lo como nosso. Também fizemos uma petição para religar a fonte (que estava desativada), assim teríamos REALMENTE um novo clima lá. Conseguimos mais de 200 assinaturas em um único fim de semana (nada como usar glamour!) e graças ao nosso empenho o ESP é agora um evento RECONHECIDO OFICIALMENTE pela prefeitura. Sim, eu sei que isso nos aproxima da boca do lobo, mas você bem sabe q gostamos de viver no limite, né?

Parece que as meninas vão tentar fazer outro encontro pagão por lá em algum outro dia, mas nossos rituais vão garantir que o evento delas morra de inanição.

Segue anexo a cópia do novo convite do evento, devidamente modificado com mensagens subliminares para que outros Invisíveis saibam quem manda no ESP agora.

ICE!!

Noname

PS: Estamos observando dois agentes em potencial. O primeiro é um garoto de 18 anos da zona norte. Ele ainda está muito impregnado de merda wiccana, mas iremos começar a desfoder a cabeça dele. Outro é um sujeito de 24 anos que mora em Taboão. Parece que já tem uma caminhada mágica bem eclética e por isso mesmo estudaremos o cara com certo cuidado antes de iniciarmos os testes. Drafenna, Dante e Leósias foram designados para ficar de olhos neles.

Os Invisíveis – E.S.P. – Parte V

Quando todos acordam, estão em uma van. Na frente deles estão outros companheiros que não haviam sido convocados para esta missão: Lesma, Rocco, Safires e Lilith. Dante é o primeiro a se manifestar:

- Eita porra… O que aconteceu?

Quem responde é Safires enquanto dirige:

- Mamãe tentou falar com vocês via celular e não conseguiu. Tentou o elo psíquico e nada também. Então fomos convocados para o resgate.

Noname parece transtornado:

- Poutz… E como vocês conseguiram?

- O único cara que poderia me encarar estava desmaiado no quarto. – diz Lesma sorrindo. – As minas não quiseram encarar minha boken e o Rocco aqui quebrou o rádio com um chute para mostrar que não estávamos brincando. Sem o som a energia lá baixou legal.

- Isso não muda o fato de que caímos como amadores na porra da armadilha delas. – diz Leósias. – Não sei vocês, mas não estou a fim de deixar isso barato. Subestimamos as garotas, mas saquei o ponto fraco delas: tiram suas energias dos outros e para isso precisam de muita gente. A questão agora é fazer essa porra de encontro virar um caos, no sentido pejorativo mesmo.

Noname comenta:

- E você já tem um plano em mente, certo?

Leósias sorri:

- Não. Mas vou ter. E aí juro que fodo com aquela Bela, e não é no sentido sexual.

- Tem algum outro? – Lesma pergunta.

O interior da van explode em gargalhadas

(a seguir: o final!)

Os Invisíveis – E.S.P. – Parte IV

A confraternização é em um apartamento próximo ao parque, durante o caminho, Dante fala para todos:

- Galera, a casa delas é exatamente em cima da Linha de Ley que passa pelo Parque Trianon e pelo MASP, queria acreditar que é coincidência, mas…

- “Coincidências não existem”. – dizem todos meio que rindo.

Todos entram no prédio, sobem pelo elevador e chegam ao apartamento. Um pentagrama vermelho pintado no teto, estátuas de bruxas, pôsteres de lobos, uns cinco gatos circulando e uma enorme espada de duas mãos pendurada atrás da porta. Leósias chega próximo a Noname:

- Caralho, cê viu aquela espada? Acho que não devíamos ter dispensado os Ice Knigths. E outra coisa, essa casa era pra emanar energia negativa. O pentagrama mais os gatos estão dando uma amenizada, mas mesmo assim eu consigo sentir. Vamos erguer um Círculo Branco em torno de nós.

- Círculo Branco? – reclama Noname. – Porra, isso é técnica dos Rosa-Cruzes Áurea!

- Eu sei, mas é fácil e rápido de fazer, além de nos proteger dos ataques psíquicos e mentais mais óbvios. Passe para os outros.

Meio contrariado, ele vai falar com o resto do grupo. Então chega para falar com Leósias um rapaz alto, forte, careca, de bigode, cavanhaque e óculos escuros e pergunta:

- Lembro que você falou lá no ESP que lia tarô. Por acaso seu baralho tá aí?

- Tá sim.

- Tem como você ler pra mim?

Leósias pensa um pouco e diz:

- Claro, só vamos para um lugar mais reservado.

Os dois vão para um dos quartos para ler. Começa a tocar “Velhas Virgens” no rádio e garrafas de vinho e whisky são trazidas. No quarto, Leósias senta na cama, abre sua bolsa, tira uma caixa de madeira com uma estrela do caos feita em marchetaria e pega seu baralho. O rapaz parece impressionado ao vê-lo:

- Nossa, que tarô é esse?

- O da Vertigo, foi o capista do Sandman, Dave McKean, quem desenhou as cartas, vários personagens da Vertigo estão aqui: Constantine, Sandman, Tim Hunter…

Mas subitamente a porta se abre e surge Bela com um sorriso no rosto. Ela vê os dois e pergunta:

- Centaurus querido, posso propor um jogo ao nosso amigo?

- Claro! – ele responde sorrindo também.

Leósias estranha a situação e lembra que não teve tempo de erguer o Círculo Branco! Será que os outros lembraram? Ele acende um cigarro para manter o ar de calmo. Bela continua:

- Por que você não lê tarô pro pessoal lá da sala? Quem sabe adivinhe o que está rolando…

O tal de Centaurus era grande. Encará-lo era pedir para apanhar. E não sabia que tipo de poderes Bela tinha. O jeito era entrar no jogo. Calmamente ele estende um lenço com uma estrela do caos estilizada, embaralha as cartas se concentrando, dá uma tragada no cigarro e tira cinco cartas, as colocando em forma de cruz. Então vira uma a uma.

A Lua.

O Demônio.

O Louco.

A Carruagem.

A Torre.

Imediatamente coloca as cartas na caixa e levanta, mas Centaurus o empurra de volta na cama, sorrindo e estralando o dedos:

- Quem disse que vai sair daqui?

Precisava pensar rápido! Estava sentado na cama, com a caixa do tarô nas mãos e o sujeito em pé na sua frente. Imediatamente dá um soco no saco do cara e, no que ele arqueia de dor e surpreso, dá com a caixa na cabeça dele, o desmaiando. A garota sorri:

- Nossa, não esperava que soubesse brigar.

- Não sei brigar, mas a gente improvisa.

Ela começa a se aproximar, com seus olhos brilhantes, belo sorriso e abrindo o vestido:

- Não quer improvisar comigo? Garanto que vai ser bem divertido…

Leósias analisa a situação. Ela era bonita. Tinha um ar gótico: pela clara, longos cabelos negros, gostosa. Parecia boa de cama. Praticamente um fetiche ambulante. Até poderia tirar uma casquinha e depois ver como estavam os outros. Por que não? Bela coloca as mãos no peito dele, dizendo:

- Hum… Por trás dessa magreza aparente parece que temos alguém gostosinho…

Mas ele sai correndo e tranca a porta do quarto por fora. Com o som alto ninguém vai ouvi-la batendo. E a visão da situação na sala confirma as cartas. Todos estão se esfregando, se beijando. Dante está desmaiado em um sofá, provavelmente bêbado. Drafenna, Noname e Camis estão em canto se agarrando. Todos caíram na armadilha! Noname vê Leósias e diz, sorrindo:

- Olha quem tá aí! Ei cara, join us! Join us!

- Join us? – pergunta Leósias, indignado. – Saiam dessa! Fomos pegos! Temos que cair fora daqui!

Mas Camis o abraça pelo pescoço:

- Por que você não relaxa e aproveita?

E ela tasca um beijo em Leósias. Ela não estava pronto para ser atacado por um dos seus. Logo eles acham um espaço em um dos sofás e estão se agarrando também. Todos se entorpecem naquela ambiente de bebidas e luxúria…

(continua…)

Os Invisíveis – E.S.P. – Parte III

Metrô Trianon-Masp. Domingo a tarde. Estão reunidos Leósias, Dante, Camis e Drafenna. A primeira delas é morena, tem cabelos encaracolados e curtos, piercing no nariz, está com um vestido estilo indiano, sandálias e um violão a tiracolo. A outra possui pela clara, é magra, cabelos castanho claro raspados, camisa regata rosa, calça jeans e tênis. Dante reclama:

- Porra, o Noname vai atrasar de novo?

- Caralho Dante, ele vai vir mais tarde com os Ice Knigths. Eles não sabem da missão. – responde Leósias.

Drafenna pergunta:

- Então podemos ir né?

E todos vão para o parque. O encontro rola próximo a uma fonte que existe lá dentro, mas agora está desativada. Conforme combinado, Noname chega meia hora depois com os seus amigos. Até agora tudo parece relativamente normal. Pessoas vestidas como no dia a dia, alguns com pinta de gótico, outros com seus tradicionais símbolos pendurados ao pescoço. A maioria é jovem, mas temos um casal já chegando na meia-idade. As organizadoras são duas jovens, Bela e Abelhinha, simpáticas e atenciosas. Todos procuram algum sinal de algo errado, mas nada. Leósias comenta com Noname:

- Tem certeza que é esse o encontro? Só tem um monte de gente metido a wicca, pseudo-góticos…

- Tenho, mas estou estranhando também. De qualquer jeito, vamos ver no que dá.

Acontece uma roda de apresentação, onde vemos que ali temos wiccans, bruxos naturais, xamãs, umbandistas e alguns curiosos. Depois uma palestra sobre tarô e uma discussão sobre o assunto. Quando o encontro está quase no fim, as organizadoras passam uma lista pedindo nome, telefone e e-mail “para mandar as datas de futuros encontros”. Por precaução, todos colocam dados falsos. Quando todos já estão para ir embora, uma das organizadoras chega em Dante Sólon e convida para uma festinha que vai ter na casa de uma delas depois daqui. Ele estranha e pergunta:

- Hã, mas não vai todo mundo?

Bela responde sorrindo e com uma leve piscada:

- Na verdade nessa parte a gente só chama quem nós gostamos e vocês e seus amigos parecem legais.

Dante passa a notícia para seus amigos. Drafenna pergunta:

- Gente, se até agora não pegou nada, não vai ser em uma festinha que vai dar problema. Os Rosacruzes e Maçons nem vieram hoje…

Todos ficam pensativos. Leósias fala:

- Bem, de qualquer maneira, não teremos embates físicos. Os Ice Knigths podem ser dispensados, mesmo porque eles não podem saber de muito também. Não agora. Vamos para a festa, mas todos nós devemos estar com nossas defesas no máximo. Vamos evitar beber e coisas do tipo.

E todos partem a tal festa.

(continua…)

Os Invisíveis – E.S.P. – Parte II

Dante Sólon entra na sala

Leósias entra na sala

Noname entra na sala

Dante Sólon fala para todos: Ice!

Leósias fala para todos: Chaos!

Noname fala para todos: Chaos! E aí, quais as informações que vocês conseguiram?

Leósias fala para todos: Bem, o encontro que vai rolar domingo agora é o ESP, Encontro Social Pagão. Quem organiza é uma lista de discussão chamada Gaia-Paganus, que existe faz uns anos já e tem membros do Brasil inteiro. Esses encontros rolam aqui em Sampa, no Rio de Janeiro, Espírito Santo, Porto Alegre e estão organizando pra começar um em Lisboa, Portugal.

Dante Sólon fala para todos: Portugal? Eita porra! O bagulho não é pequeno não!

Leósias fala para todos: Essa lista não é nenhuma ordem ou coisa do tipo. Quem fundou a parada é uma bruxa natural que atende pelo nick de Freya e ela é do Rio. Até onde pude ver, não trabalha pro outro lado. Ela até ajuda a gente meio que sem querer…

Noname fala para todos: Então por que a Mamãe nos mandou dar uma olhada?

Leósias fala para todos: Porque aqui em Sampa esse encontro virou alvo de disputa de algumas facções do paganismo. Parece que a Associação Brasileira de Bruxos (Abrabru) está tentando tomar o controle do evento, que se diz independente de qualquer ordem. Além disso parece que as organizadoras daqui estão tretadas com a tal Freya e pra piorar, temos maçons e rosacruzes comparecendo ao encontro.

Noname fala para todos: Será influência deles a briga?

Leósias fala para todos: Não dá pra saber… A questão é que é quase certeza que o próximo encontro vai ser o último que essas minas vão organizar e aí teremos uma brecha na organização e um monte de gente babando pra pegá-la. A tal de Freya parece que até tenta escolher quem organiza a parada aqui, mas como ela tá no Rio, nada é certo.

Dante Sólon fala para todos: Tá, vamos ter que ir para lá. Além de nós, alguém mais para chamar?

Leósias fala para todos: Bem, acho bom chamar a Drafenna e a Camis para termos o toque feminino na parada. E Noname, não rola chamar uns Ice Knigths pro caso de rolar alguma treta?

Noname fala para todos: Rola sim. Chamo o Ogrinho e o Lord Gustaf.

Dante Sólon fala para todos: Belesma então. Nos encontramos no domingo no horário e local combinado. Leósias avisa os outros e Noname chama os Ice.

Noname responde para todos: Certo então! ICE!

Dante Sólon fala para todos: CHAOS!

Leósias fala par todos: CHAOS!!

Noname sai da sala.

Dante Sólon sai da sala.

Leósias fala para todos: Por que eu sou sempre o último a sair?

Leósias sai da sala.

(continua…)

Os Invisíveis – E.S.P. – Parte I

Praça Sílvio Romero, bairro Tatuapé, cidade de São Paulo, Brasil. No coreto estão sentados um sujeito cabeludo, barba por fazer, sobrancelhas grossas, camisa xadrez, calça jeans, sapatos e uma bolsa preta a tiracolo e um outro de cabelos pretos penteados para trás, suíças, óculos vermelhos e camiseta e calça jeans pretas. Ambos estão fumando e parecem impacientes. O cabeludo pergunta:

- Caceta, o Noname nunca é pontual.

O de óculos responde:

- Isso não é novidade, Dante. Ele vindo tá bom. Mesmo porque é ele quem sabe da missão.

- Certo… É que eu trouxe umas brejas e não queria que elas esquentassem, Leósias, só isso…

Então se aproxima um sujeito de cabelos encaracolados, óculos, barba por fazer, camiseta do Blind Guardian, calça jeans, tênis adidas e mochila nas costas. Os dois na praça sorriem ao vê-lo:

- Aleluia!

Noname sorri de volta e fala:

- Tentei vir na hora, mas minha mãe queria que eu comesse antes de sair e…

- Tá bom, tá bom! – interrompe Dante. – Vamos ao que interessa!

Ele tira umas cervejas da bolsa, todos abrem, brindam e dão o primeiro gole. Noname começa:

- Recebi uma mensagem da Mamãe Caos. Temos uma nova missão. – gole na cerveja. – Parece que tem uma nova egrégora se formando aqui em Sampa e temos que checar se tá tudo rolando bem.

- Tipo, qual é a egrégora? – pergunta Leósias.

- Basicamente tão rolando diversos encontros pagãos no Parque Trianon, lá na Paulista. Quase todo fim de semana algum tipo de pagão, neo-pagão ou qualquer merda do tipo está se reunindo lá a tarde.

Dante não entende:

- Eita porra! Mas isso não é bom? Não enfraquece a egrégora cristã?

- Mais ou menos… – explica Noname. – Parece que quem está puxando isso é um pessoal da wicca meio dogmático. Existe um receio de se substituir um padrão por outro. E, tipo, imaginem adolescentes querendo usar magia para catar seus amores ou se vingar de qualquer merdinha!

Dante e Leósias ficam pensativos. O segundo diz:

- Verdade, verdade… Quais os procedimentos?

- Os de sempre. Vamos fazer nossas pesquisas usuais e chegar como quem não quer nada. O encontro é no domingo que vem. Então proponho um encontro sexta a noite no nosso canal do MIRC para trocarmos o que conseguimos, beleza?

- Belesma! – respondem os dois.

(continua…)

Meu Marco Zero

DSC03088“Imaginação é mais importante que inteligência”.
- Albert Einstein

Quando ando pelo centro de São Paulo, tenho o hábito de colocar a mão no monumento do Marco Zero da cidade e dizer “Olá São Paulo, tudo bem?”. Em meio aquela junção de músicas nordestinas, crentes berrando, músicos itinerantes se apresentando e outros barulhos da cidade, às vezes eu quase ouço a cidade tentando me responder, mas nunca consegui entender. Mas é como se a alma da cidade ou seu coração estivesse ali, então sempre realizo esse ritual, como aquelas senhoras fazem com estátuas de santos católicos.

Outro dia li na Internet que o Marco Zero atual é o terceiro de uma tentativa de delimitar onde a cidade começou de fato. Também já ouvi que o Marco Zero na Praça de Sé é na verdade algo somente colocado lá como curiosidade ou atração turística e que no verdadeiro ponto inicial da cidade está a Catedral da Sé. Segundo essa mesma teoria, ficaria em um lugar escondido, mais abaixo que a igreja que existe dentro da Catedral, talvez onde estivessem enterrados todos aqueles arcebispos e um índio.

Marco_Zero_SPA verdade é que nunca fui atrás da historia oficial não. Para muita gente que passa pela praça diariamente aquele é o Marco Zero e aquilo me basta. Mesmo que não seja, tanta gente acredita que aquilo passa a ser um fato. E sem contar que não sabendo o que realmente houve e mesmo assim achando que lá está onde tudo começou tudo fica mais bonito e complexo. A história se enche de simbologia e se torna lendária, mítica.

Por exemplo, temos no monumento em hexágono indicando que em cada lado dele fica um estado do Brasil. Fizeram isso com base em mapas ou alguém saiu andando/cavalgando/dirigindo/voando e constatou que saindo daquele ponto em direção “x” saio em tal estado? Caso eu pegue uma bússola e um mapa ou resolva tentar seguir essa linha imaginária vai dar certo?

Sem contar o formato de pedestal do monumento. Lembra totens indígenas, monumentos de civilizações perdidas ou até extraterrestres. Ele foi construído ou quando os jesuítas e bandeirantes chegaram já estava ali? Caso já estivesse ali, a quem interessava denomina os nomes de cidades e estados daquela maneira? Os índios residentes ali há milênios o adoravam como um deus e recebiam algo em troca dessa adoração?

Mapa do Marco Zero na Sé - 22 12 09 - RMGTambém já ouvi dizer que o monumento na verdade é uma espécie de trava para correntes místicas que passam pela região e foi colocado ali pela Igreja Católica para bloquear/controlar esse fluxo de pura magia. Segundo essa teoria o que determina o centro de uma cidade é seu lugar e papel dentro desses caminhos de energia e por isso que sempre nos centros das cidades tem uma igreja e algum monumento na frente, em uma espécie de Feng Shui planetário.

Por isso mesmo nunca fui atrás da “Verdadeira História do Marco Zero da Cidade de São Paulo”. Deve ser algo tão chato envolvendo política e conchavos mesquinhos que prefiro ficar com minhas teorias malucas. Assim posso continuar tentando entender o que São Paulo quer me dizer.

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Maldito Irlandês – Final

O sujeito continua esmurrando a porta do banheiro e parece impaciente. Jonh Constantine volta-se para o vampiro:

- Que tal terminarmos nosso papo em uma mesa bebendo algo?

Cassidy não acredita no que está ouvindo:

- Tá achando que sou otário? Na primeira oportunidade vai querer fugir e cê não sai daqui sem me responder tudo sobre a morte do Brendan!

Do lado de fora continuam esmurrando a porta. O inglês suspira:

- Escuta, daqui a pouco a porta vai abrir de qualquer jeito e acredito que quanto menos chamarmos a atenção é melhor para nós dois, certo?

O vampiro parece pensar sobre o assunto e John continua:

- Além disso, você já me viu, sabe onde moro. Nada te impede de me encontrar de novo. Eu só quero sair desse banheiro imundo e desfazer esse mal-entendido de maneira mais civilizada.

Realmente as palavras do mago tinham certo sentido. Cassidy havia captado o cheiro dele e poderia rastreá-lo facilmente. Teria suas respostas de um jeito ou de outro, portanto a idéia de resolver isso sentado e bebendo não era tão ruim. Caminha até a porta do banheiro e a abre. Um homem grande, careca e barbudo parece bem irritado.

- As duas bichas já acabaram de se chupar pra eu poder usar o banheiro, porra?

Cassidy agarra o sujeito pelo colarinho e o puxa para dentro do banheiro.

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Maldito Irlandês – Parte IV

Por essa Cassidy não esperava. Achava que iria pegar o sujeito de surpresa e de repente ele é quem é surpreendido! Subitamente ele se lembra de tudo o que ouviu a respeito de Constantine e passa pela sua mente a idéia de que algumas histórias poderiam ser verdadeiras… Besteira. Já tinha visto muito picaretas por aí enganando pessoas com a postura e papo certos. Realmente a entrada do inglês havia sido um tanto quanto impressionante, mas seria necessário mais do que isso para impedir Cassidy de saber a verdade sobre a morte de Brendan Finn.  Não se intimida e retruca:

- E que caralho cê sabe sobre o que estou fazendo aqui?

Estava óbvio que o vampiro fora pego de surpresa e sem saber como agir. Constantine se permite sorrir por dentro.  De presa havia passado para predador. Talvez o deixasse sair daqui inteiro para poder avisar os outros e assim não ser mais incomodado. Mas precisava continuar o jogo até ter certeza disso. Dá mais uma tragada antes de responder:

- Sei muito mais do que pensa e realmente não vale a pena. Sei que está me culpando pelo que houve, mas acredite que tudo foi conseqüência dos atos dele.

Então o inglês sabia o que realmente houve com Brendan! Cassidy cerra os dentes e os punhos:

- Escuta aqui seu punheteiro filho da puta: os outros podem ter caído nesse seu papinho de merda, mas comigo não vai funcionar. Cê pode falar a verdade agora enquanto está com todos os dentes ou tentar depois com a porra do maxilar quebrado. Cê que sabe.

John não poderia dizer a verdade ou saberiam que só havia matado o Rei dos Vampiros em um golpe de sorte e passariam a caçá-lo. Por outro lado, o sujeito à sua frente realmente parecia disposto a cumprir a ameaça, o que também era um tanto estranho. Nada de efeitos especiais, tentativas de hipnose, demonstrações de poder ou discursos enfadonhos. O papo era curto e grosso e isso soou tão peculiar que pedia mais atenção. Pensa um pouco antes de dizer:

- Isso vai fazer diferença depois desse tempo todo? E o que garante que depois que eu dizer o que sei você não vai querer me matar? Esquece isso e vai viver sua “vida”, meu chapa. É melhor pra todo mundo.

A palavra “vida” foi dita com um tom diferente, quase de deboche. O que mais John sabia sobre Cassidy para falar desse jeito? Estava tirando sarro da cara dele por que queria saber o que houve com Brendan mesmo após tanto tempo? Mas esse não era o ponto principal. O inglês quis garantias de que não seria morto. Isso só poderia significar que ele tinha alguma culpa pela morte de seu amigo e não queria contar. Pois se não contaria por bem, contaria por mal. Antes que pudesse sequer pensar no passo seguinte, Constantine estava sendo erguido pelo colarinho por Cassidy!

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Maldito Irlandês – Parte III

Algo desperta a mente de Constantine. Tinha alguma coisa estranha no local. Alguma coisa não humana. Com o tempo você aprende a sentir isso. É uma espécie de cheiro, mas não no sentido físico. É algo espiritual mesmo. Havia aprendido a técnica para perceber espíritos não visíveis, mas com a prática era possível ver e identificar qualquer coisa não humana. O problema não é que havia algo não humano no pub. O que realmente deixou o mago preocupado foi sentir esse algo olhando diretamente pra ele! Agora precisava saber quem e o que era e sem deixar o observador perceber que fora notado. Esfrega os olhos e finge pegar um cigarro enquanto se concentra no cheiro. É um vampiro.

John achava que não veria nunca mais um deles, não após ter conseguido matar o Rei dos Vampiros. Foi na época em que tinha terminado com Katherine. O baque foi tão grande que Constantine largou tudo e passou a beber pelas ruas de Londres. Após dias e dias bebendo é fácil esquecer seus problemas e quem você é. Quando sua maior preocupação é arrumar dinheiro para uma refeição decente e encontrar um lugar quente e seco pra dormir, você mal se lembra da pessoa amada que te deixou. E assim foi por quase um ano.

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