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Maldito Irlandês – Final

O sujeito continuou esmurrando a porta do banheiro e parecia impaciente. John Constantine voltou-se para o vampiro:

- Que tal terminarmos nosso papo em uma mesa, bebendo algo?

Cassidy não acreditava no que estava ouvindo:

- Tá achando que sou otário? Na primeira oportunidade, vai querer fugir! E cê não sai daqui sem me responder tudo sobre a morte do Brendan!

Do lado de fora continuavam esmurrando a porta. O inglês suspirou antes de dizer:

- Escuta, daqui a pouco a porta vai abrir de qualquer jeito, e acredito que quanto menos chamarmos a atenção é melhor para nós dois, certo?

O vampiro pareceu pensar sobre o assunto e John continuou:

- Além disso, você já me viu, sabe onde moro. Nada te impede de me encontrar de novo. Eu só quero sair desse banheiro imundo e desfazer esse mal-entendido de maneira mais civilizada.

Realmente, as palavras do mago tinham certo sentido. Cassidy havia captado o cheiro dele e poderia rastreá-lo facilmente. Teria suas respostas de um jeito ou de outro, portanto a idéia de resolver isso sentado e bebendo não era tão ruim. Caminhou até a porta do banheiro e a abriu. Um homem grande, careca e barbudo parecia bem irritado.

- As duas bichas já acabaram de se chupar pra eu poder usar o banheiro, porra?

Cassidy agarrou o sujeito pelo colarinho e o puxou para dentro do banheiro, fechando a porta novamente.

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Maldito Irlandês – Parte IV

Por essa Cassidy não esperava. Achava que iria pegar o sujeito de surpresa e  ele quem foi surpreendido! Subitamente, lembrou-se de tudo o que ouvira a respeito de Constantine, e passou pela sua mente a ideia de que algumas histórias poderiam ser verdadeiras… Besteira. Já havia visto muito picaretas por aí enganando pessoas com a postura e papo certos. Realmente, a entrada do inglês havia sido um tanto quanto impressionante, mas seria necessário mais do que isso para impedir Cassidy de saber a verdade sobre a morte de Brendan Finn.  Não se deixou intimidar e retrucou:

- E que caralho cê sabe sobre o que estou fazendo aqui?

Estava óbvio que o vampiro fora pego de surpresa e sem saber como agir. Constantine permitiu-se sorrir por dentro.  De presa havia passado para predador. Talvez o deixasse sair daqui inteiro, para poder avisar os outros e assim não ser mais incomodado. Mas precisava continuar o jogo até ter certeza disso. Deu mais uma tragada no cigarro antes de responder:

- Sei muito mais do que pensa. E realmente não vale a pena. Sei que está me culpando pelo que houve, mas acredite, tudo foi conseqüência dos atos dele.

Então o inglês sabia o que realmente houve com Brendan! Cassidy cerrou os dentes e os punhos:

- Escuta aqui, seu punheteiro filho da puta: os outros podem ter caído nesse seu papinho de merda, mas comigo não vai funcionar. Cê pode falar a verdade agora enquanto está com todos os dentes, ou tentar depois com a porra do maxilar quebrado. Cê que sabe.

John não podia dizer a verdade, ou saberiam que só havia matado o Rei dos Vampiros em um golpe de sorte e passariam a caçá-lo. Por outro lado, o sujeito à sua frente realmente parecia disposto a cumprir a ameaça, o que também era um tanto estranho. Nada de efeitos especiais, tentativas de hipnose, demonstrações de poder ou discursos enfadonhos. O papo era curto e grosso. Isso soou tão peculiar que pedia mais atenção. Pensou um pouco antes de dizer:

- Isso vai fazer diferença depois desse tempo todo? E o que garante que depois que eu dizer o que sei você não vai querer me matar? Esquece isso e vai viver sua “vida”, meu chapa. É melhor pra todo mundo.

A palavra “vida” foi dita com um tom diferente, quase de deboche. O que John sabia sobre Cassidy para falar desse jeito? Estava tirando sarro da cara dele por que queria saber o que houve com Brendan, mesmo após tanto tempo? Mas esse não era o ponto principal. O inglês quis garantias de que não seria morto. Isso só podia significar que ele tinha alguma culpa pela morte de seu amigo e não queria contar. Pois se não contaria por bem, contaria por mal. Antes que pudesse sequer pensar no passo seguinte, Constantine estava sendo erguido pelo colarinho por Cassidy!

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Maldito Irlandês – Parte III

Algo despertou a mente de Constantine. Havia alguma coisa estranha no local. Alguma coisa não humana. Com o tempo você aprende a sentir isso. Era uma espécie de cheiro, mas não no sentido físico, mas espiritual mesmo. Tinha aprendido a técnica para perceber espíritos não visíveis, mas, com a prática, era possível ver e identificar qualquer coisa não humana. O problema não era que havia algo não humano no pub. O que realmente deixou o mago preocupado foi sentir que este algo estava olhando diretamente pra ele! Agora, precisava saber quem e o que era, sem deixar o observador perceber que fora notado. Esfregou os olhos e fingiu pegar um cigarro enquanto se concentrava no cheiro. Era um vampiro.

John achava que não veria nunca mais um deles, não após ter conseguido matar o Rei dos Vampiros. Isso aconteceu na época em que tinha terminado com Katherine. O baque havia sido tão grande que Constantine largou tudo e passou a beber pelas ruas de Londres. Após dias e dias bebendo é fácil esquecer seus problemas e quem você é. Quando sua maior preocupação é arrumar dinheiro para uma refeição decente e encontrar um lugar quente e seco pra dormir, você mal se lembra da pessoa amada que te deixou. E assim foi por quase um ano.

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Maldito Irlandês – Parte II

Constantine. Quanto mais Cassidy descobria sobre este nome, mais irritado ficava. Havia anos que não vinha para a Irlanda – sua terra natal – e, quando resolveu voltar para visitar seu velho amigo Brendan Finn, descobriu que o sujeito estava morto. O corpo havia sido encontrado dias depois de sua morte, em sua velha adega subterrânea. O cadáver já esteva em estado de decomposição, com um copo de cerveja vazio em mãos. Cassidy soube que a causa oficial da morte fora cirrose, mas também ouviu que duas pessoas estiveram na casa de seu amig,o perto da data estipulada do falecimento. Uma delas ele ainda não conseguiu descobrir quem foi, mas soube rapidamente que a outra era John Constantine.

Perguntando aqui e ali, descobriu muito sobre ele. Parecia que vinha bastante para estes lados, e todos os donos de bares e pubs lembram de ter visto ou ouvido falar nele, mas ninguém o conhecia profundamente. Muitos diziam que era um charlatão inglês que se passava por bruxo, e ganhava a vida aplicando golpes em crédulos mundo afora. Outros diziam que era um trambiqueiro profissional que ganhava a vida comprando e vendendo objetos raros contrabandeados. Também disseram que vivia do dinheiro que ganhava jogando pôquer. Alguns poucos não chegavam a afirmar que ele realmente era um bruxo, mas diziam que coisas estranham sempre aconteciam com ele ou com quem estava por perto. Porém, uma informação era consenso: Constantine era um cara perigoso e andar com ele significava correr perigo. Mais de uma vez, ouviu histórias de “um amigo de um amigo” que tinha morrido ao cruzar o caminho do inglês. Eram pessoas perfeitamente sãs que se matavam, assassinatos em circunstâncias misteriosas, internações em hospitais psiquiátricos, desaparecimentos nunca solucionados. Todo mundo tinha uma opinião sobre John Constantine, e quase nenhuma era boa.

Cassidy conheceu Brendan Finn nos Estados Unidos uns bons anos atrás, quando estava na pior por causa de seu vício em heroína. O dinheiro havia acabado fazia um tempo, e sua companheira o abandonou após uma discussão que acabou com ele dando um tapa na cara dela. Estava difícil conseguir emprego e todos seus amigos ou conhecidos no momento não o emprestavam dinheiro, sabendo que gastaria em drogas. Pensou em assaltar alguém, mas antes disso resolveu tentar conversar com seu fornecedor habitual. Bill era um sujeito mesquinho, que sabia que o fato de ser o único fornecedor de heroína na região lhe dava poder sobre as outras pessoas e ,frequentemente, abusava desse poder. Mas Cassidy o conhecia desde antes dele ser traficante e esperava que isso pesasse a seu favor para conseguir pelo menos a dose desse dia. Claro que não adiantou nada. Mas em nome da “amizade” deles, Bill forneceria uma dose se Cassidy fizesse sexo oral nele. Até o fim. O irlandês precisava daquela dose. Quem sabe se fizesse tudo direito ele não ganhasse até um pouco a mais? Tentando pensar que isso era melhor que assaltar outras pessoas, ajoelhou e fez o que tinha que fazer, amaldiçoando mais a si mesmo do que a seu fornecedor.

Quando acabou, Bill o mandou ir embora, já que não gostava de andar com “viados viciados”. Cassidy teve um acesso de fúria e partiu pra cima dele, mas havia se esquecido dos dois capangas do traficante. Levou uma porretada nas costas e logo estava no chão sob uma avalanche de chutes, socos e porretes.

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vaMaldito Irlandês – Parte I

Constantine. A simples menção deste nome em certos círculos abria as portas para o Paraíso ou para o Inferno, seja metafórica ou literalmente falando. A família Constantine parecia carregar uma espécie de maldição e praticamente todos os seus membros se envolveram com o ocultismo, fossem como carrascos ou como vítimas. Mas o inglês John Constantine elevou a fama da sua família a níveis nunca antes alcançados. Diziam por aí que se aproximar demais dele era se aproximar da morte e essas histórias não eram nem em pouco exageradas. Se houvesse apenas inimigos mortos, a situação não seria ruim. Mas havia amigos e amantes entre a pilhas de cadáveres que se amontoava ao redor dele. Alguns contavam que até mesmo vampiros ancestrais, anjos e demônios pereceram ao medir forças com o mago inglês. Quando indagado pessoalmente sobre a veracidade dessas histórias, John Constantine se limitava a sorrir, soltar uma baforada de fumaça e dizer: “É o que dizem”, em uma imitação sarcástica de outro sujeito com a iniciais JC.

Porém até um canalha como John Constantine as vezes precisa de um descanso, deixar a armadura de lado. Havia poucos lugares onde ele poderia fazer isso, poucas pessoas que mereciam tamanha confiança. E a casa de Brendan Finn era um desses poucos lugares com uma destas raras pessoas. Era um casarão que mais parecia um castelo e ficava em um local isolado da Irlanda. Quando as coisas pesavam demais, ele passava alguns dias por ali, longe de tudo e  de todos, deixando a magia e os engodos para trás. O irlandês era amigo de longa data de Constantine e eles haviam rodado boa parte do mundo bebendo, brigando e aplicando golpes a torto e direito. Mas Finn cansou-se dessa vida, arrumou uma companheira e passou a viver por ali.

Ventava muito em frente ao casarão e o mago inglês desistiu de tentar acender o cigarro, guardando o maço e o isqueiro em seu velho e encardido sobretudo bege. O único som em quilômetros era o das ondas se despedaçando na encosta atrás da construção. O céu estava carregado de tons de cinza e parecia que vai chover , mas hoje a porta não iria se abrir. Brendam Finn não vai receber John Constantine com suas piadas sem graça e suas opiniões sempre certas sobre qualquer assunto. Hoje era aniversário da morte de Finn e John ainda não sabia o que veio fazer aqui.

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