Três horas da manhã. Marcos está sentado no sofá da sala, abatido, lamentando sua vida. “Minha vida? Que piada!” – ele pensa. Ainda não se conformava do fato de Sílvia ter ido embora. Não se conformava do porquê ela ter ido embora. Amaldiçoava o dia em que se tornou um vampiro. E amaldiçoava ainda mais a ordem de vampiros ao qual pertencia. Por ordem de seus superiores, ele e mais alguns amigos se arriscaram para salvar Sílvia. Ela também era uma vampira e havia sido capturada por um laboratório farmacêutico. Para manter a existência dos vampiros em segredo, foi necessário resgatá-la e destruir alguns arquivos do laboratório. A missão foi um sucesso.
Então começaram os problemas. Sílvia não tinha mais onde ficar e Marcos ofereceu sua casa. Ela aceitou. Com o tempo, os dois se apaixonaram. Mas ela era uma Desgarrada, uma paria. Não pertencia a nenhum dos grupos vampíricos da cidade. Os superiores de Marcos não viram com bons olhos o fato dele ter oferecido abrigo a ela, mas ficaram quietos. Um romance, porém, era mais do que poderiam admitir. Um romance poderia nublar a mente de Marcos e fazê-lo esquecer que a Ordem está acima de tudo. Poderia fazê-lo até trair a Ordem. E tudo por causa de uma Desgarrada! Eles foram bem claros: “A expulse de sua casa e a deixe só, ou nós mesmos cuidaremos disso”. Marcos não queria vê-la morta pelos seus próprios erros. Acabou o relacionamento e a mandou embora.
Ele ainda se encontrava perdido em pensamentos quando sua campanhia tocou. Ao abrir a porta, uma surpresa:
- Zé?
Continuar lendo ‘Tudo Errado’
Sim, minha cara.
Eu a estou convocando.
Não resista.
Você não pode,
Você não quer.
Se aproxime,
Sinta o meu gélido toque,
Sinta o arrepio que ele causa,
Á sua pele mortal.
Sinta meus lábios nos seus.
Se entregue totalmente.
Deixe o prazer tomar conta de você.
Só assim você não sentirá.
Não sentirá quando meus caninos
Afundarem em seu pescoço,
Sugando toda e essência da sua vida.
Se entregue ao prazer.
Só assim você não sentirá.
Não até ser tarde demais.
(Poesia também publicada na revista virtual Informais)
Steve finalmente acorda. Sua cabeça dói muito. Olha em volta, tentando reconhecer o lugar. É uma sala aparentemente pequena, sem janelas e sem mobília, a não ser pela cadeira na qual está algemado e pelo holofote ligado e apontado em sua direção, o que não o deixa ver muita coisa. Tenta usar seu sangue para aumentar sua força, mas isso se mostra em vão, pois não são algemas comuns.
Frustado, abaixa a cabeça e respira fundo. Não acredita que se deixara capturar tão facilmente. Ele é alto e, apesar de ser magro, não era exatamente um “frangote”. Usa seu cabelo impecavelmente curto e penteado de lado. Está sempre bem vestido, com roupas tipo esporte (se bem que a roupa que está usando agora encontra-se coberta pelo sangue de diversas feridas pelo seu corpo). Sem poder fazer nada, tenta pôr a cabeça em ordem…
Continuar lendo ‘A Confissão Final’
A chuva noturna castiga São Paulo, não irá demorar para as enchentes começarem. Mesmo assim, há aqueles que ousam enfrentar o tempo e sair. Nas ruas do centro, próximas a Praça da República, um sujeito percorre o local sem medo de ser assaltado. Faz tempo que os mortais deixaram de ser perigosos para ele, pois agora é um vampiro. Seu nome é Raphael Valadares e, apesar da meia-idade, persegue seus objetivos com o fervor de um adolescente, e essa foi sua ruína. Ele traja roupa social preta e um sobretudo bege. Seus curtos cabelos loiros estão encharcados pelo temporal, assim como sua roupa. Tira seus óculos e os guarda, pois com as lentes cheias de gotas não é possível enxergar praticamente nada. Ele precisava encontrar um refúgio, de preferência, fora da cidade. Fazia parte de uma ordem de vampiros-feiticeiros e o juramento que ditava o comportamento e metodologia da ordem era bem rígido em um ponto: proibido fazer pactos com demônios. Bem, ele não só fez o pacto, como o mesmo fora feito para assassinar Caesar Augusto, o atual líder da capela de São Paulo. Raphael tencionava assumir seu lugar, pois achava a atual regência conservadora demais e precisava “adiantar” a sua nomeação para o posto. Tivera que oferecer, em sacrifício, três almas mortais para que o demônio cumprisse sua parte do acordo. E o diabólico ser cumpriu sua parte, fazendo com que um incêndio consumisse a mansão de Caesar durante o dia. Tudo estaria bem, mas um maldito vampiro pertencente ao grupo conhecido como “ratos” viu tudo e contou para os manda-chuvas vampiros. Agora precisava sumir. Tinha alguns contatos que o possibilitariam sair de forma segura da cidade.
Continuar lendo ‘Punição’
Publicado em 5 de fevereiro de 2008 .